LASANA LUKATA

a linha verde do horizonte

                                                                                                                                       a Ronaldes de Melo Souza

 

 

 

há linha do horizonte azul, vermelha, dourada,

mas para ver a linha verde do horizonte

é preciso condição especial, distância adequada,

a dois milímetros da imaginação.

 

é preciso estar no mar, vigia de mar,

na parte mais alta do navio, por vezes com frio,

recarregar, em alta voltagem, o lápis pontiagudo

à altura do mastro, nos dias de tempestades

com o fogo de Santelmo para nos dias de céu limpo

ver e converter a linha verde do horizonte em uma ponte

que una o homem à poesia.

 

e nas horas mareadas, cabisbaixas proas no abismo,

erguer a cabeça,

apoiar os olhos na linha verde do horizonte.

 

você não existe, é só relâmpago,

mas sempre a vejo na linha verde do horizonte.

quanto mais me aproximo, mais se afasta.

 

você não sabe com que ígneo olhar a contemplei

ao reverberar seu sorriso, feraz presença.

 

você não sabe das vivas marés que me atiram à terra.

induzido ao risco — não me atenuaram;

até no marisco recai a culpa.

que suturo as feridas com a linha verde do horizonte,

você não sabe...

você não sabe,

um barco muito rico se perdeu no nevoeiro

e tudo o que faço é talhar a pedra,

desencalhar navios,

desassorear poemas,

facilitar a navegação das palavras.

no cais onde fico

                                        me codifico

                                        me clarifico

                                        me danifico

e a espuma negra sublinha

ansiedades de andorinha.

no cais onde fico,

garça com o bico

amputou suas asas.

nem ela nem eu

nos fazemos ao mar

 

e Deus, do seu estojo de costura,

sempre sou despedaçado,

a guerra não economiza destroços,

refaz-me, refina-me com a linha verde do horizonte.

 

a linha verde do horizonte, como a garça,

é parça do sol nascendo e se pondo,

num estrondo de cores,

filha da branca luz que se dispersa.

 

a linha verde do horizonte

é rápida, intensa e repentina

como uma inspiração.

 

ah vivas marés que me atiram à terra:

mantenho insecável a umidade de poeta.