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Quando o Sangue Enferruja

 

 

É muito difícil viver

quando já não existe dentro de nós

nada que nos peça para ficar.

 

A alma se torna um quarto abandonado,

onde até o silêncio

cheira a madeira molhada e despedida.

 

Minhas lágrimas secaram há tanto tempo

que já não sabem mais cair.

Meu sangue,

de tanto carregar meus mortos,

também enferrujou.

 

E eu continuo aqui.

 

Não porque ainda exista esperança,

mas porque até a morte

parece ter esquecido meu endereço.

 

Acendo um cigarro,

observo a fumaça subir

como uma alma que encontrou

uma saída deste corpo.

 

Talvez viver seja isso:

continuar respirando

quando tudo dentro de nós

já aprendeu a morrer.

 

E, no fundo do peito,

onde antes havia amor,

restou apenas ferrugem

e o som de um coração

batendo por puro hábito.