Davi G.

Calvário

Há um ruído na mente,

um silêncio no peito,

pensamento recorrente,

procurando algum jeito.

 

Eu carrego uma cruz,

não por fé, nem castigo.

Talvez seja só a luz

que ainda briga comigo.

 

Tem olhares que decifram,

sem sequer perguntar.

Tem silêncios que significam

mais que o ato de falar.

 

Entre o caos e o intelecto,

entre o impulso e a razão,

há um abismo tão discreto

disfarçado de atração.

 

Gosto do que não se entrega,

do que escapa à explicação.

Da presença que não nega,

mas também não dá a mão.

 

Talvez seja só estética,

talvez seja identificação.

Duas mentes meio céticas,

flertando com a contradição.

 

Porque existe certo encanto

no que não pede tradução.

No olhar que guarda tanto

e ainda assim deixa questão.

 

E talvez o mais bonito

seja aquilo que não se diz:

um detalhe quase infinito

fazendo a noite parecer feliz.

 

No fim, não há resposta,

nem precisa existir.

Algumas coisas ficam mais bonitas

quando ninguém tenta definir.