Senti as partículas de areia adentrando nos dedos dos meus pés enquanto encarava a corrente que fluía e me levava pra longe; me puxando pra perto
Precisava te encontrar, pequena
Sabia que estava presa por entre os redemoinhos
Adentrei no mar, confiante de que te encontraria
Meus cabelos ressecados e lábios rachados
Meus ombros pesados
Nadei por horas, procurei por você nos escombros mais profundos
Imaginei que te encontraria; mas me enganei
Eu chamei por você; gritei com todas as forças
Tenho gritado desde que percebi seu sumiço
Você sumiu quando te coloquei a prova de seus limites
Me perdoe; garotinha
Devia ter compreendido que éramos crianças
Não devia ter te sobrecarregado com tantas inseguranças
Deixe - me lhe mostrar que somos suficientes uma da outra
E que caminharemos juntas; sendo exatamente o que fomos destinadas a ser
Então ouvi seu choro
Você estava presa; presa no lugar onde te deixei sem ao menos notar
No mais escuro dos escombros; naquele que mais lutei para sair; mas não te levei comigo
Mergulhei; era exatamente como me lembrava
Angústia; medo; choro; culpa
Estendi a mão e segurei seus pequenos dedos
Te puxei para mim
Estamos na superfície; pequena
Somos suficientes
Nos libertamos
Devemos continuar aprendendo a viver uma com a outra; entendendo que sempre estaremos uma na outra
Saímos de mãos dadas
Nossas pegadas de areia pela avenida
Ora redondas, ora deformadas
Nossos cachos ao vento
Nossas risadas sussurrando ao fundo
Eu me libertei da corrente que beirava à dependência
(L.V)