Você ainda não foi, mas eu vejo os sinais,
seus olhos não brilham mais,
não reconhece meu rosto,
não sabe meu nome.
A cada dia ruim me preparo para sua partida.
Seus dedos são gelados,
como se sangue ali não mais circulasse.
Eu seguro o mundo com as minhas mãos, tentando evitar o estilhaço.
Não acho que os outros percebam,
não como eu.
Eles não veem que você está cansada, perdida, assustada,
não enxergam para não ter que aceitar.
Te ver dessa forma, magra definhando, como um cadáver em vida,
me faz querer gritar.
Esse é o sentimento mais recorrente da nossa relação,
Quero te balançar pelos ombros exigindo que você levante, que se lembre.
Eu me culpo constantemente, incessantemente.
Me culpo por não poder te salvar,
me culpo por ainda ter raiva que pulsa todos os dias,
que se espalha pelo meu corpo como o sangue que corre pelas minhas veias.
Qual o ponto da mágoa quando você nem ao menos consegue se lembrar do que fez,
não vai ter pedido de desculpas,
você não vai me ver casar,
nem conhecer meus filhos.
Partir assim, talvez seja a coisa mais cruel que você fez,
escuto as pessoas falando que você não merece isso,
de fato ninguém merece,
mas talvez se existisse alguém que merecesse, seria você.
E esse pensamento contamina meu cérebro,
como veneno que se espalha pelo solo fértil.
Talvez eu nunca consiga te perdoar,
ou talvez me agarre a esse sentimento para me proteger da dor de te ver partir todos os dias mais um pouquinho.
Me despeço hoje,
para quem sabe estar preparada para amanhã.
Me engano que dessa forma seja mais fácil.
Me despeço hoje, porque sei que quando a hora chegar terei que me manter inteira.
Um conceito irônico, já que você quem ajudou a me quebrar,
e terei que aprender a me reconstruir para te enterrar.
Me despeço a cada vez que te vejo,
a cada vez que não sabe quem eu sou,
a cada vez que vejo seu olhar,
ou te escuto a gritar.
Me despeço por não ter outra saída,
por ver que mesmo em vida,
você já se foi.