Se cair na sarjeta,
escolha o lado em que a sombra ainda finge ser fresca.
Se a ideia acende,
cuspa no pavio.
Pensamento claro é paisagem
que já foi habitada.
Toda ternura exige um gesto:
a moeda, gasta-se em fogo.
A boca amada, afasta-se
antes que vire espelho.
O corpo que pede prego e parede
também pede colo —
escolha o martelo,
dói menos.
O nojo é só um jeito honesto
de tocar o mundo sem deixar digital.
Nada merece a vertigem
do meu apetite.
É mais nobre conversar com ruínas,
lamber o sal de estátuas,
deitar com o que já desistiu de ser.
E se a hora vier com seus lábios gelados,
vai sem pressa,
olhar seco,
rosto quase em riso.
Despede-te como quem apaga
a última lâmpada da casa
e deixa a porta entreaberta —
por malícia,
por desprezo,
por se ainda houver quem entre no escuro
e tropece em meu silêncio
como em veneno quente.
Prego, Sombra e Veneno
de Ayalah Verônica Berg