Freddie Seixas

Só Mais Uma....

POETA TRISTE

A vida de Freddie 
Eu não sei exatamente
em que dia nasceu o poeta.
Talvez tenha sido antes de eu saber escrever.
Talvez tenha nascido
na primeira vez em que chorei escondido,
na primeira vez em que percebi
que os adultos também mentem,
que os homens também quebram,
que algumas despedidas
não fazem barulho quando acontecem.
Talvez o poeta tenha nascido
quando meu pai foi embora da minha vida
e eu ainda não tinha aprendido
que certas ausências
ocupam uma casa inteira.
Ou talvez tenha sido minha mãe.
Porque algumas mães
ensinam os filhos a sobreviver
sem nunca perceber
que estão ensinando.
E eu sobrevivi.
Sobrevivi aos dias em que não tinha dinheiro,
às noites em que tinha medo,
às manhãs em que acordei sem vontade,
aos espelhos que me devolveram
um homem que eu não reconhecia.
Sobrevivi às minhas escolhas.
E talvez essa tenha sido
a parte mais difícil.
Porque é muito fácil
culpar o mundo
quando a própria mão
também ajudou a construir o desastre.
Eu sei dos meus erros.
Não sou inocente.
Já feri quem me amava.
Já procurei fora
aquilo que deveria ter cuidado dentro.
Já confundi desejo com liberdade,
carência com amor,
orgulho com dignidade,
silêncio com paz.
Já fui covarde.
E existe uma espécie de dor
que nasce quando você percebe
que a pessoa que destruiu alguma coisa
também foi você.
Essa dor não faz barulho.
Ela senta ao lado da cama.
Espera você apagar a luz.
E pergunta:
“E agora, Freddie?”
E eu não sei.
Eu nunca sei.
Mas continuo.
Talvez seja por isso
que escrevo.
Porque quando não sei responder
eu faço poesia.
Quando não consigo falar
eu escrevo.
Quando o peito aperta
eu transformo o aperto em verso.
Quando a culpa pesa
eu tento colocá-la no papel
para conseguir carregar o resto.
Eu sou esse homem.
Um homem que muitas vezes
parece forte por fora
porque aprendeu cedo
qu ninguém respeita muito
quem desaba no meio da rua.
Então eu aprendi a levantar.
Levantar cedo.
Levantar peso.
Levantar a cabeça.
Levantar a vida.
Às vezes,
levantar sozinho.
Quatro da manhã.
Enquanto muita gente dorme,
eu acordo.
O mundo ainda está escuro.
E talvez seja justamente por isso
que eu goste tanto desse horário.
Porque ninguém espera nada de mim
quando o dia ainda não começou.
É só eu,
meu corpo,
meus pensamentos
e Deus.
Eu entro na academia
quando a cidade ainda boceja.
Coloco peso no aparelho
como quem coloca problemas
Sobre os próprios ombros.
Empurro.
Puxo.
Respiro.
Sofro.
Repito.
Porque aprendi uma coisa:
o ferro não aceita desculpas.
Ele não quer saber
se você brigou com alguém.
Não pergunta
se você dormiu bem.
Não quer saber
se seu coração está partido.
Não se importa
se você está com saudade.
O peso simplesmente está ali.
E você precisa levantar.
Talvez seja por isso
que eu tenha amado a academia.
Porque ela me ensinou
uma linguagem que a vida conhece:
resistência.
Você coloca carga.
O corpo responde.
Você sofre.
O corpo se adapta.
Você cai.
Descansa.
Volta.
E tenta novamente.
Talvez Deus tenha colocado
um pouco de musculação na minha alma.
Porque até hoje
Ele continua aumentando a carga
e eu continuo tentando descobrir
quanto ainda consigo suportar.
Eu já fui muito maior.
O espelho já foi meu inimigo.
Eu já escondi meu corpo
e escondi minha vergonha
junto com ele.
Hoje olham para mim
e enxergam resultado.
Poucos enxergam
o homem que precisou existir
para chegar até aqui.
Porque ninguém vê
as madrugadas.
Ninguém vê
as vezes em que eu quis desistir.
Ninguém vê
o prato pesado de culpa
que algumas pessoas carregam
sem que ninguém perceba.
O corpo muda.
A alma demora mais.
Mas muda também.
Devagar.
No silêncio.
Repetição por repetição.
Erro por erro.
Perdão por perdão.

E quando eu falo em perdão
não estou falando apenas de Deus.
Estou falando de mim.
Porque passei muito tempo
tentando descobrir
como voltar para quem eu era.
Hoje eu percebo:
eu não quero voltar.
Quero me tornar
alguém que eu ainda não conheci.
Um homem que não precise destruir
para sentir alguma coisa.
Um homem que saiba amar
sem possuir.
Que saiba pedir desculpas
sem transformar desculpas
em estratégia para voltar.
Que saiba perder
sem desejar o mal.
Que saiba ficar
sem abandonar a si mesmo.
Que saiba partir
quando ficar significa machucar.

Eu amei.
Meu Deus,
como eu amei.
E talvez essa seja
a maior prova contra mim.
Porque quem nunca amou
não sabe o tamanho
da própria capacidade de destruir.
Eu tive uma casa.
Tive uma mulher.
Tive uma história.
Tive anos.
Tive planos.
Tive um amor que conheceu
minhas versões mais feias
e ainda assim me chamou pelo nome.
E eu errei.
Não existe metáfora bonita
para isso.
Não existe poema
que transforme erro em acerto.
Nqo existe verso
que apague o que aconteceu.
Existe somente a verdade:
eu errei com quem eu amava.
E algumas noites
eu gostaria de poder voltar.
Não para mudar tudo.
Apenas para chegar
alguns minutos antes
daquele homem que eu fui
e segurá-lo pelos ombros.
Olhar nos olhos dele
e dizer:

“Não faça isso, Freddie 
Você não sabe
o que está prestes a perder.”
Mas o passado
não escuta poesia.
Ele não volta.
Ele apenas permanece.
Como cicatriz.
Como lição.
Como fantasma.
E mesmo assim,
eu ainda acredito no amor.
Isso talvez seja
a coisa mais absurda em mim.
Depois de tudo,
eu ainda acredito.
Acredito no amor antigo
que talvez um dia
consiga olhar para mim
sem enxergar somente
o homem que errou.
Acredito que algumas histórias
não terminam quando as pessoas
param de se abraçar.
Algumas continuam
vivendo no lugar secreto
onde duas pessoas
ainda desejam felicidade uma à outra.
E se um dia
eu tiver a chance de reconquistar
aquele amor,
eu não quero reconquistá-lo
com promessas.
Quero chegar diferente.
Porque amor não é convencer alguém
a voltar.
Amor é se tornar
alguém em quem valha a pena
voltar a confiar.
E se ela nunca voltar,
eu ainda vou desejar
que seja feliz.
Porque amar alguém
também é aceitar
que talvez a felicidade dela
não tenha mais o meu nome.
Essa é uma das coisas
mais dolorosas que um homem
pode aprender.
E talvez também
uma das mais bonitas.


Mas a vida,
essa desgraçada,
não espera o coração terminar
de entender uma história
antes de começar outra.
E então apareceu
um novo amor.
Ou talvez
uma nova forma de sentir.
E eu fiquei dividido.
Porque existe uma culpa
em tentar amar novamente
quando ainda existe alguém
morando nas ruínas do peito.
Como se o coração
fosse uma casa pequena demais
para duas lembranças.
Como se amar novamente
fosse trair o que ficou para trás.
Mas talvez não seja.
Talvez o amor não seja
uma cadeira única.
Talvez o coração
seja justamente
o lugar onde as histórias
aprendem a coexistir.
Uma pessoa pode ser
o amor que você perdeu.
Outra pode ser
o amor que encontrou você.
E você pode amar ambas
de maneiras diferentes
sem que nenhuma delas
precise ser mentira.
Mas eu não quero usar ninguém
para esquecer ninguém.
Não quero transformar
um novo amor
em anestesia.
Se eu amar novamente,
quero amar acordado.
Com medo.
Com responsabilidade.
Com verdade.
Sem esconder meus fantasmas.
Porque quem vier depois de mim
merece conhecer o homem inteiro.
Não apenas o poeta.
Não apenas o personal.
Não apenas o cara forte
que levanta peso.
Não apenas o sorriso.
Mas também o homem
que às vezes chora no escuro.


E existe Deus.
Ah,
Deus.
Eu já procurei você
em tantos lugares.
Nas igrejas.
Nos livros.
Nos silêncios.
Nas noites.
Nas derrotas.
Nos pequenos milagres
que quase ninguém percebe.
Eu já tive raiva de você.
Já questionei você.
Já achei que você tinha ido embora.
Já pedi sinais
quando talvez
o sinal fosse justamente
eu ainda estar respirando.
E mesmo quando eu não entendi,
continuei procurando.
Talvez fé seja isso.
Não é enxergar.
É continuar olhando
mesmo quando os olhos
não encontram nada.
Eu não sou santo.
Deus sabe.
Eu não sou exemplo.
Também sabe.

Eu sou um homem tentando.
E talvez seja justamente isso
que eu consiga oferecer a Ele:
tentativa.
Um dia de cada vez.
Um erro de cada vez.
Uma mudança de cada vez.
Uma oração de cada vez.
Pai,
se existe algum lugar
onde você consegue me ouvir,
eu espero que saiba:
eu ainda penso em você.
Às vezes eu tenho vontade
de te contar quem eu virei.
Queria falar da academia.
Dos meus alunos.
Do meu trabalho.
Da poesia.
Das mulheres que amei.
Dos erros que cometi.
Do homem que estou tentando ser.
Queria te perguntar
se você teria orgulho de mim.
Mas a pergunta mais difícil
seria outra:
“Pai, o que você faria
no meu lugar?”
Talvez você soubesse.
Talvez não.
Talvez a vida seja justamente
esse negócio estranho
de os filhos crescerem
sem receber todas as respostas.
Então eu sigo.
Tentando ser homem
sem ter mais a sua mão
para me mostrar o caminho.
E talvez uma parte de você
continue andando comigo.
Talvez seja por isso
que algumas saudades
não diminuem.
Elas apenas aprendem
a caminhar ao nosso lado.

Mãe,
você também está em mim.
Nas coisas que faço
sem perceber.
Nos medos.
Nas preocupações.
No jeito de amar.
Nas lembranças
que ninguém consegue arrancar.

Talvez eu nunca consiga
te devolver tudo
o que você fez por mim.
Filho cresce.
Mãe envelhece.
E um dia percebemos
que o tempo não pediu autorização
para passar.
Por isso,
se algum dia eu esquecer
de dizer,
eu digo agora:
obrigado.
Por ter me segurado
quando eu ainda não sabia
me segurar.
Por ter acreditado
em um menino
que ainda não sabia
o tamanho da vida.
Eu sou parte das suas lutas.
Mas também sou parte
da sua esperança.


E minha avó...
Há pessoas que pertencem
a uma parte tão profunda
da nossa memória
que falar delas
parece abrir uma janela
dentro da infância.
Avó é isso.
É cheiro.
É voz.
É casa.
É uma espécie de tempo
que não volta
mas nunca desaparece completamente.
Talvez algumas pessoas
não morem mais conosco.
Mas continuam morando
em pequenas coisas.
Num jeito de falar.
Numa lembrança.
Num prato.
Numa fotografia.
Num domingo.
Num silêncio.
E eu carrego os meus mortos
sem fazer deles túmulos.
Faço deles raízes.

Eu tenho família.
Tenho histórias.
Tenho gente que veio antes de mim.
E tenho crianças
que me lembram
que a esperança precisa continuar.
Porque quando uma criança olha para você,
ela não quer saber
quantas vezes você caiu.
Ela só quer saber
se você consegue mostrar
que ainda vale a pena levantar.
E talvez seja por isso
que eu ainda queira ser melhor.
Não porque eu seja bom.
Mas porque alguém pode estar olhando.
Algum menino.
Alguma menina.
Algum aluno.
Algum filho.
Algum desconhecido.
E talvez um dia
alguém precise acreditar
que um homem quebrado
também pode reconstruir
a própria história.


Eu sou professor do corpo.
Mas escrevo sobre a alma.
Ensino pessoas
a levantarem peso.
Enquanto tento aprender
a levantar o meu.
Ensino disciplina.
Enquanto luto
com meus próprios demônios.
Falo de constância.
Enquanto existem dias
em que minha cabeça
me manda desistir.
Talvez isso seja hipocrisia.
Ou talvez seja humanidade.
Porque quem ensina
não precisa ser perfeito.
Precisa continuar aprendendo.
E eu aprendo.
Todo dia.


Eu aprendi que existem
dois homens dentro de mim.
Um quer guerra.
O outro quer paz.
Um quer responder.
O outro quer perdoar.
Um quer voltar para trás.
O outro quer seguir.
Um quer provar
que estava certo.
O outro finalmente entendeu
que paz vale mais
do que vencer uma discussão.
Um quer ser amado.
O outro quer aprender
a amar.
E eles brigam.
Todos os dias.
Mas talvez eu não precise matar nenhum deles.
Talvez eu precise ensinar
um ao outro.
Porque coragem sem amor
vira violência.
E amor sem coragem
vira covardia.
Então eu tento equilibrar
o homem que luta
com o homem que sente.
O ferro com a poesia.
A razão com a fé.
A culpa com o perdão.
A saudade com o presente.
A solidão com a esperança.

Eu sou o Freddie.
Não o personagem.
Não o homem das fotografias.
Não o cara que parece forte.
Não o poeta que sabe encontrar
palavras bonitas para a tristeza.
Eu sou o homem
que às vezes não encontra palavra nenhuma.
Sou aquele que olha para o teto
e pergunta:
“Meu Deus,
quando é que isso vai passar?”
Sou aquele que sente falta
e não manda mensagem.
Que quer voltar
e sabe que talvez não possa.
Que ama
e às vezes precisa deixar ir.
Que tem medo
mas vai mesmo assim.
Que cai.
Que erra.
Que se arrepende.
Que tenta.
Que falha.
Que tenta de novo.

Eu não sou feito somente
das minhas vitórias.
Sou feito principalmente
das coisas que quase me mataram
e não conseguiram.
Sou feito dos quilos que perdi.
Das noites que sobrevivi.
Das lágrimas que escondi.
Dos abraços que não dei.
Dos pedidos de desculpa.
que demoraram.
Dos amores que chegaram.
Dos amores que partiram.
Das pessoas que ficaram.
Das pessoas que eu perdi.
Dos amigos.
Dos inimigos.
Dos alunos.
Dos professores que passaram por mim.
Dos corredores da academia.
Das músicas.
Dos livros.
Da poesia.
Da minha mãe.
Do meu pai.
Da minha avó.
Das minhas crianças.
Das mulheres que amei.
De Deus.
E dos meus próprios demônios.

Eu tenho demônios.
Mas não tenho vergonha deles.
Porque todo homem
que olha honestamente para dentro
encontra alguma coisa
que preferia não encontrar.
O problema não é ter sombra.
O problema é fingir
que você é somente luz.
Eu já fui egoísta.
Já fui fraco.
Já fui impulsivo.
Já fui arrogante.
Já fui inconsequente.
Já machuquei.
Já me machuquei.
Já quis ser desejado
quando precisava ser amado.
Já quis ter razão
quando deveria ter pedido perdão.
Já procurei no mundo
uma resposta
que estava dentro de mim.
E ainda estou aprendendo.


Talvez seja por isso
que eu escreva triste.
Não porque eu odeie a vida.
Mas porque eu a conheço.
A alegria passa rápido.
A tristeza demora.
A alegria faz barulho.
A tristeza senta
e fica.
E eu aprendi a escutá-la.
Não para morar nela.
Mas para descobrir
o que ela veio me ensinar.
Toda cicatriz
tem uma história.
Toda história
tem uma ferida.
E toda ferida
pode virar poesia.

Eu não quero ser
o poeta que romantiza a dor.
Quero ser o poeta
que atravessa a dor.
Quero escrever
para quem está no banheiro
chorando antes de voltar
para a mesa.
Para quem trabalha o dia inteiro
e ninguém pergunta
se está bem.
Para quem treina
porque não sabe mais
onde colocar a própria raiva.
Para quem ama alguém
que não pode amar de volta.
Para quem perdeu o pai.
Para quem teme perder a mãe.
Para quem sente saudade
de uma avó.
Para quem se separou.
Para quem traiu.
Para quem foi traído.
Para quem quer pedir perdão.
Para quem precisa perdoar.
Para quem encontrou um novo amor
e tem medo de estragar tudo.
Para quem ainda espera
um amor antigo.
Para quem acredita em Deus

e mesmo assim está cansado.
Para quem deixou de acreditar
mas secretamente
ainda espera um sinal.
Eu escrevo para esse povo.
Porque eu sou esse povo.


E se um dia
alguém me perguntar:
“Fred, quem é você?”
Eu não vou responder
com profissão.
Nem com idade.
Nem com peso.
Nem com currículo.
Nem com medalha.
Nem com dinheiro.
Nem com quantidade de pessoas
que me amaram.
Eu vou dizer:
Sou um homem tentando.
Sou filho.
Sou pai de sonhos
que ainda não nasceram.
Sou saudade.
Sou erro.
Sou esperança.
Sou academia às quatro da manhã.
Sou suor.
Sou café.
Sou música no fone.
Sou oração silenciosa.
Sou madrugada.
Sou fotografia antiga.
Sou mensagem apagada.
Sou nome que ainda dói.
Sou abraço que não aconteceu.
Sou beijo que ficou na memória.
Sou amor antigo.
Sou possibilidade de amor novo.
Sou arrependimento.
Sou vontade de recomeçar.
Sou um homem
que ainda acredita
que pode ser melhor.


Eu sou poeta.
Mas não porque escrevo bonito.
Poeta não é quem encontra
palavras difíceis.
Poeta é quem consegue
enxergar significado
onde os outros só enxergam rotina.
É olhar para uma academia vazia

e enxergar uma batalha.
É olhar para uma mãe
e enxergar uma vida inteira.
É olhar para uma fotografia do pai
e enxergar uma conversa
que nunca mais vai acontecer.
É olhar para uma mulher
e enxergar não somente beleza,
mas a possibilidade
de construir ou destruir
um mundo inteiro.
É olhar para uma criança
e lembrar que esperança
ainda existe.
É olhar para Deus
mesmo depois de cair
e dizer:
“Eu ainda estou aqui.”
E talvez essa seja
a minha maior poesia.
Eu ainda estou aqui.
Depois de tudo,
eu ainda estou aqui.
Depois dos erros,
eu ainda estou aqui.
Depois da separação,
eu ainda estou aqui.
Depois das noites difíceis,
eu ainda estou aqui.
Depois das perdas,
eu ainda estou aqui.
Depois das vezes
em que pensei que não conseguiria,
eu ainda estou aqui.
O mundo tentou me ensinar
que algumas pessoas
não se levantam.
Eu virei exceção.
Não porque sou forte.
Mas porque não tive outra escolha.
Levantei.
Às vezes sangrando.
Às vezes chorando.
Às vezes sem ninguém.
Mas levantei.


E se o amor antigo voltar,
eu não quero recebê-lo
com o mesmo homem
que um dia o perdeu.
Quero recebê-lo
com alguém que aprendeu.
Alguém que sabe
que fidelidade não é apenas
não tocar outra pessoa.
É cuidar.
É respeitar.
É proteger.
É escolher.
Todos os dias.
E se não voltar,
que Deus me ensine
a não transformar saudade
em prisão.
Que eu consiga agradecer
pelo que vivi
sem exigir que o passado
me devolva o futuro.
E se um novo amor ficar,
que eu não o faça pagar
pelos pecados de outro.
Que eu tenha coragem
de dizer:
“Eu tenho cicatrizes.
Mas não quero que você
seja responsável por elas.”

Eu não sei
onde termina a minha história.
Ainda não.
Talvez amanhã
eu erre de novo.
Talvez eu caia.
Talvez eu chore.
Talvez alguém vá embora.
Talvez alguém fique.
Talvez Deus mude meus caminhos
de uma maneira que eu ainda
não consigo imaginar.
Mas existe uma coisa
que eu sei.
Eu não quero morrer
sem ter vivido de verdade.
Não quero chegar ao fim
e descobrir que passei a vida inteira
tentando parecer forte.
Quero amar.
Quero escrever.
Quero treinar.
Quero ensinar.
Quero rir.
Quero chorar.
Quero viajar.
Quero conhecer lugares
que ainda não conheço.
Quero envelhecer
olhando para trás
e reconhecer aquele menino
dentro do homem.
Quero que minha mãe
tenha orgulho.
Quero honrar meu pai.
Quero lembrar minha avó.
Quero que as crianças
que passam por mim
aprendam que disciplina
não é punição.
É liberdade.
Quero que quem ler minhas palavras
sinta alguma coisa.
Nem que seja raiva.
Nem que seja saudade.
Nem que seja vontade de ligar
para alguém.
Mas que sinta.
Porque um poema que não toca
é apenas tinta organizada.
Então,
se você me perguntar
por que eu escrevo,
eu vou dizer:
porque existe coisa demais
dentro de mim.
Existe um homem
gritando.
Existe um menino
pedindo colo.
Existe um filho
procurando o pai.
Existe um filho
querendo proteger a mãe.
Existe um neto
guardando memórias.
Existe um amante
que ainda sente.
Existe um homem
arrependido.
Existe um professor
que ensina.
Existe um atleta
que insiste.
Existe um pecador
que procura Deus.
Existe um homem
que quer voltar para casa.
Existe outro
que está tentando descobrir
onde é essa casa.
E existe um poeta.
Um poeta triste.
Não porque odeia o mundo.
Mas porque senti
o mundo demais.


Talvez eu seja
um ponto de interrogação.
Porque ainda não terminei.
Ainda não sei
quem serei daqui a dez anos.
Ainda não sei
quem estará ao meu lado.
Ainda não sei
qual amor ficará.
Ainda não sei
quais pessoas voltarão.
Ainda não sei
quais portas Deus abrirá.
Mas sei quem fui.
E respeito aquele homem.
Mesmo quando ele errou.
Porque foi ele
quem trouxe o Freddie até aqui.
E sei quem sou hoje.
Um homem tentando
ser digno da próxima página.

Então, Deus,
se estiver me ouvindo,
não me dê uma vida fácil.
Me dê coragem
para atravessar a difícil.
Não me livre de toda dor.
Ensine-me a não desperdiçá-la.
Não apague meus erros.
Ensine-me a não repeti-los.
Não me devolva tudo
o que perdi.
Devolva-me apenas
aquilo que ainda puder
ser vivido sem destruir ninguém.
Se houver amor antigo
que possa nascer novamente,
que nasça limpo.
Se houver amor novo,
que eu saiba recebê-lo.
Se houver solidão,
que eu não me abandone.
Se houver dinheiro,
que eu não me perca nele.
Se houver sucesso,
que eu não esqueça
quem estava comigo
quando eu não tinha nada.
Se houver fracasso,
que eu não esqueça
que ainda sou teu filho.
E se um dia
eu esquecer quem sou,
me lembra.
Porque eu sou Freddie.
E Freddie ainda está aprendendo.


Eu sou o homem
que saiu de um corpo
que já não reconhecia
e construiu outro.
Agora estou fazendo
a mesma coisa com a alma.
Talvez demore.
Talvez doa.
Talvez eu precise
perder mais algumas coisas.
Mas eu vou.
Um treino por vez.
Uma página por vez.
Uma oração por vez.
Um perdão por vez.
Um amor por vez.
Uma manhã por vez.

E quando tudo terminar,
quando eu estiver velho
e minhas mãos não tiverem
a mesma força,
quando o ferro não responder
como respondia,
quando minha voz estiver cansada,
quando os amores forem
principalmente lembranças,
quando meus pais forem
fotografias,
quando meus filhos e crianças
que passaram pela minha vida
já forem adultos,
eu quero olhar para trás
e dizer:

“Eu tentei.”
Não fui perfeito.
Mas tentei.
Amei.
Errei.
Pedi perdão.
Chorei.
Perdi.
Ganhei.
Caí.
Levantei.
Acreditei.
Duvidei.

E acreditei novamente.
Escrevi.
E enquanto escrevia,
não deixei a tristeza
me transformar em um homem vazio.
Transformei a tristeza
em palavra.
Transformei a culpa
em mudança.
Transformei a saudade
em memória.
Transformei o amor
em poesia.
Transformei o corpo
em disciplina.
Transformei a fé
em caminho.
Transformei as quedas
em degraus.
E talvez seja isso
que Deus queria de mim
desde o começo.
Não que eu nunca caísse.
Mas que, depois de cada queda,
eu aprendesse
a levantar diferente.

Por isso,
se um dia alguém perguntar:
“Quem foi Freddie?”
Não diga que foi
um personal trainer.
Não diga que foi
um poeta.
Não diga que foi
um homem que amou demais
ou errou demais.
Diga apenas:
foi um homem que sentiu.
Sentiu a mãe.
Sentiu o pai.
Sentiu a ausência.
Sentiu a avó.
Sentiu a mulher.
Sentiu a separação.
Sentiu o novo amor.
Sentiu a culpa.
Sentiu Deus.
Sentiu o ferro.
Sentiu a madrugada.
Sentiu o mundo.
E, mesmo quando sentir
parecia uma maldição,
ele continuou sentindo.
Porque foi justamente
por sentir demais
que aprendeu a escrever.
E foi escrevendo
que descobriu:
a tristeza não era
o fim da história.
Era a tinta.

Então aqui estou.
Sem capa de herói.
Sem discurso de santo.
Sem fingir que estou bem quando não estou.
Sou apenas Freddie.
Um homem de carne,
suor, erro, fé e saudade.
Um homem que ainda ama.
Um homem que ainda espera.
Um homem que ainda treina.
Um homem que ainda escreve.
Um homem que ainda procura Deus.
Um homem que ainda olha
para trás algumas vezes.
Mas que finalmente entendeu
que não pode viver
de costas para o futuro.
E se o mundo quiser saber
o que existe dentro de mim,
abra minhas páginas.
Não procure perfeição.
Procure verdade.
Porque aqui dentro
não existe um santo.
Não existe um demônio.
Existe um homem.
E talvez,
entre todas as coisas
que eu poderia ter sido,
eu tenha escolhido
ser justamente isso:
um poeta triste
tentando escrever
um final feliz
sem mentir sobre a tristeza
que o trouxe até aqui.
E enquanto houver uma página,
eu continuo.
Enquanto houver uma mãe
para abraçar,
eu continuo.
Enquanto houver uma memória
do meu pai,
eu continuo.
Enquanto minha avó
existir dentro de mim,
eu continuo.
Enquanto houver alguém
para amar,
eu continuo.
Enquanto houver Deus
para procurar,
eu continuo.
Enquanto houver um corpo
para levantar,
eu continuo.
Enquanto houver uma lágrima
para transformar em verso,
eu continuo.
E quando perguntarem
por que ele nunca desistiu,
talvez ninguém saiba responder.
Mas eu saberei.
Porque, no fundo,
o poeta nunca foi triste
por estar vivo.
Ele era triste
porque sabia
o quanto a vida podia ser bonita.
E talvez essa seja
a minha maior contradição:
eu sofri tanto
que aprendi a amar a vida.
Eu sou Freddie.
Sou poeta.
Sou filho.
Sou homem.
Sou erro.
Sou fé.
Sou amor.
Sou saudade.
Sou luta.
Sou recomeço.
E enquanto Deus
não disser que acabou,
a história ainda não acabou.
Ainda tem página.
Ainda tem verso.
Ainda tem amor.
Ainda tem perdão.
Ainda tem caminho.
Ainda tem Freddie.

Por Freddie Seixas