Eu tenho medo do sol nascer.
Não porque a luz seja cruel —
mas porque ela revela aquilo que a noite teve a delicadeza de esconder.
Quando amanhece,
o mundo acorda com seus dentes limpos,
o café quente,
as ruas cheias de gente que ainda acredita em alguma coisa.
E eu?
Eu acordo também.
Esse é o problema.
A cada manhã,
o mundo recebe outra oportunidade para me ferir,
e, Deus — ou seja lá quem estiver administrando este inferno —
ele nunca desperdiça uma.
Já contei as cicatrizes como quem conta moedas
depois de sair de um bar ruim.
Uma por cada promessa.
Uma por cada amor.
Uma por cada homem que fui obrigado a matar dentro de mim
para continuar sendo eu.
Às vezes penso que a noite me ama.
Ela não pergunta meu nome.
Não exige que eu sorria.
Não me acusa de estar desperdiçando minha vida.
A noite simplesmente se senta ao meu lado
e fuma em silêncio.
Mas o sol...
O sol é um cobrador.
Ele bate à janela como se dissesse:
“Levanta. Ainda não terminei com você.”
Então eu levanto.
Acendo um cigarro.
Olho para o quarto enferrujado
e vejo meu rosto no vidro —
um sujeito que parece ter sobrevivido
apenas porque a morte estava ocupada naquela manhã.
E lá fora,
o mundo começa outra vez.
Outra chance para perder alguém.
Outra chance para ser abandonado.
Outra chance para amar aquilo que jamais me amará de volta.
Outra chance para descobrir
que ainda existe alguma coisa dentro de mim
capaz de ser destruída.
Por isso eu temo o amanhecer.
Não porque espero a morte.
Mas porque, secretamente,
ainda espero alguma coisa da vida.
E talvez essa seja a crueldade maior:
o sol nunca falha em nascer.
E eu nunca falho em sobreviver a ele.