Gino, Sinvaldo de Souza

A Doceira de Goiás

A Doceira de Goiás
 
Na velha casa da ponte, onde o Rio Vermelho chora,
mora a alma mais doce que Goiás já viu passar.
Suas mãos, calejadas pelo tempo, não têm hora
para colher o fruto do quintal e o tacho apurar.
 
Vila Boa adormece sob o cheiro do açúcar e da lenha,
enquanto a colher de pau desenha o ponto final.
É doce de cidra, de caju, de figo e de abóbora,
derretendo o cansaço em um tacho ancestral.
 
Diziam que era poeta, mas ela sorria de lado,
afirmando que o verso era o que menos sabia fazer.
Seu verdadeiro dom estava no fruto cristalizado,
na arte de alimentar a vida para a fome esquecer.
 
Mulher miúda, de passos lentos e olhar profundo,
embrulhava sonhos em papel celofane brilhante.
Escrevia na pedra da cozinha as verdades do mundo,
doceira por profissão, poeta por um instante.
 
O picumã no teto, o estalar do fogo no chão,
as marcas da idade que o tempo não soube apagar.
A Doceira de Goiás transformou a sua própria servidão
no mais puro alimento que a alma humana pode provar.