Oswaldo Jesus Motta

AnĂ´nimos

Acordam os ônibus,

as portas de ferro,

as padarias.

Um homem empurra

um carrinho azul.

Pão. Leite. Café.

No bolso do avental,

um caderno pautado

E um bilhete

\"estou com saudade\",

guardado

como quem guarda troco.

Sorriu.

Voltou a arrumar as garrafas.

Na esquina,

uma bolsa vermelha

presa ao corpo,

um relógio consultado

três vezes num minuto.

O que ela carrega

pesa mais

que o que está dentro.

Um ônibus passa lotado,

janelas embaçadas

de respiração alheia.

Alguém limpa o vidro

com a manga

só para ver em que rua está.

Ninguém pergunta o nome de ninguém —

e mesmo assim, por um segundo,

cabem todos no mesmo vidro embaçado.

À noite as janelas se acendem.

Numa, um prato para dois,

com um só lugar posto —

o outro talher alinhado,

esperando ser desmentido.

Amanhã

os ônibus voltam a acordar,

e ninguém vai lembrar

que hoje existiu.

Só uma janela,

em algum andar sem nome,

vai deixar a luz acesa —

não para iluminar a rua,

mas para que alguém,

passando por baixo,

sinta, sem saber por quê,

que há gente

do lado de dentro do mundo.