Acordam os ônibus,
as portas de ferro,
as padarias.
Um homem empurra
um carrinho azul.
Pão. Leite. Café.
No bolso do avental,
um caderno pautado
E um bilhete
\"estou com saudade\",
guardado
como quem guarda troco.
Sorriu.
Voltou a arrumar as garrafas.
Na esquina,
uma bolsa vermelha
presa ao corpo,
um relógio consultado
três vezes num minuto.
O que ela carrega
pesa mais
que o que está dentro.
Um ônibus passa lotado,
janelas embaçadas
de respiração alheia.
Alguém limpa o vidro
com a manga
só para ver em que rua está.
Ninguém pergunta o nome de ninguém —
e mesmo assim, por um segundo,
cabem todos no mesmo vidro embaçado.
À noite as janelas se acendem.
Numa, um prato para dois,
com um só lugar posto —
o outro talher alinhado,
esperando ser desmentido.
Amanhã
os ônibus voltam a acordar,
e ninguém vai lembrar
que hoje existiu.
Só uma janela,
em algum andar sem nome,
vai deixar a luz acesa —
não para iluminar a rua,
mas para que alguém,
passando por baixo,
sinta, sem saber por quê,
que há gente
do lado de dentro do mundo.