Hoje abri a gaveta das cartas
que nunca tive coragem de enviar.
Papel amarelado,
cheiro de chuva,
frases paradas
sem desembarcar.
Cada folha,
um pedaço de estrada
que desviei
com medo de me encontrar.
Revisei meus amores antigos
como quem passa a limpo um jornal.
Não deu lucro.
Não deu conta exata.
Deu apenas
essa lucidez desigual,
esse jeito de encostar no outro
pedindo desculpa por ser real.
Passei o dedo
nas marcas do rosto:
mapa de rios que o tempo cavou.
Não é vaidade. É topografia.
Cada ruga, um atalho que eu não andei.
E o depois chegou feito trem noturno,
levando em silêncio quem eu não escutei.
Agora, com o prédio já dormindo
e um cão distante latindo ao léu,
faço meu inventário de cicatrizes:
os nomes que deixei passar ao lado,
as viagens que nunca saíram do papel,
as brigas que alonguei só para ter razão,
as músicas que parei antes do refrão.
Porque não era hora.
Porque eu tinha medo.
Porque...
Quis ser inteiro demais
para caber
na vida que tinha.
E é isso que arde:
descobrir,
nessa curva da serra,
que a gente também é feito
do que deixou de sentir.
Quis ser inteiro demais
para caber
na vida que tinha.