Onde é meu lar?
Perdi meu nome
e, nos lugares por onde passei,
todos me conheciam como Ninguém,
tal qual Ulisses fingiu ser
para fugir da gula dos ciclopes.
Meus semideuses têm dois olhos,
munidos de indiferença e opressão.
Quando me davam um nome,
surgia o tempo de partir:
ali começavam a me preparar as formas,
os temperos, os gostos.
Mais um pouco de pressão
e eu estaria pronto para ser devorado.
Pego, então, o meu navio,
sem saber onde fica a minha Ítaca.
Parto sem olhar para trás,
sem saber se os mares terão sereias,
se encontrarei as ruínas de Troia.
Mas, enquanto eu puder ser Ninguém,
estarei protegido dos deuses.
Ser Ninguém é meu verdadeiro lar.
Então, brado à terra, ao vento e ao mar:
Meu nome é Ninguém.