O autocarro nunca chega…
20:28 PM
- Em vários horários…
- passam vários autocarros...
- menos o meu...
- eu acho que ele não deve estar a passar…
- porque estou á espera dele…
- se parar de esperar por ele e me for embora…
- aí ele vai decidir passar…
- pelo menos na teoria…
- pelo mais na prática…
- ”Quanto mais espero menos vou ter de esperar.”
- e quando menos espero ele chega…
- tirei essa lá do “O Paradoxo da Espera do Autocarro”
- falando nisso…
- será que depois deste tempo todo…
- o autocarro dele já deve ter chegado?
- qual dos dois autocarros ele deve ter apanhado?
- acho que vou me deslocar até às paragens do lado…
- para ver os horários dos autocarros restantes…
- mas tenho receio de me afastar da paragem…
- porque assim ele pode chegar…
- e eu vou perdê-lo.
- ou talvez ele vai perder-me…
- são apenas uns metros e alguns segundos…
- só que uns metros…
- podem-se tornar em uns quilómetros…
- alguns segundos…
- em alguns minutos…
- e alguns minutos…
- em várias horas...
- eu não quero correr atrás…
- caso eu não conseguir apanhá-lo a tempo…
- porque eu já corri muito atrás de autocarros…
- corri tanto…
- mas tanto…
- que mesmo assim…
- continuava atrás...
- mesmo estando à frente...
- e acabava por ficar para trás...
- perdendo assim o autocarro.
- um deles tinha o número “777”.
- com o destino “Oportunidade”.
- ele chegava às 7:07…
- mas só aparecia de vez em quando…
- para não dizer de vez em nunca…
- nunca o consegui apanhar…
- nem acho que irei.
- agora só o observo passar.
- o outro…
- não me lembro bem qual era o número…
- ou se tinha um número…
- quero dizer…
- é suposto que todos os autocarros tenham números.
- mas o destino lembro-me que era “??? Tempo”
- é outro que só observo passar.
- junto do “777 Oportunidade”
- correr atrás desse autocarro…
- foi uma perda de tempo.
- me consumiu o tempo...
- e a energia.
- nem me lembro se estava a correr atrás dele…
- a correr com ele…
- ou contra ele.
- o bom é que posso avisar os outros passageiros…
- que estão á espera desse mesmo autocarro…
- assim eles não têm de perder o tempo deles.
- mas se eu continuar à espera…
- vou continuar a perder o meu tempo.
- mas se parar de esperar…
- vou perder o autocarro.
- tendo perdido assim o tempo…
- e o autocarro.
- por falar em tempo…
- aqui vai uma filosofia sobre o tempo...
- o tempo só quer passar…
- e ser bem passado no presente…
- para no futuro ficar presente…
- no passado...
- hmm…
- filosófico…
- repara naquele homem idoso…
- sentado na paragem do outro lado da rua…
- será que envelheceu…
- por ter parado para esperar?
- ou…
- por ter parado de esperar?
- bom…
- de qualquer das formas…
- foi o tempo.
- parar para esperar…
- e parar de esperar…
- são coisas iguais…
- mas diferentes.
- porque quem abandonou a paragem…
- escolheu parar de esperar pelo autocarro…
- e quem embarcou…
- também escolheu parar de esperar…
- para embarcar no autocarro.
- é melhor eu continuar a esperar…
- realisticamente falando…
- eu não parei de esperar…
- mas parei para continuar a esperar.
- normalmente…
- desistir vai significar parar…
- mas por vezes…
- parar nem sempre vai significar desistir.
- ontem no autocarro…
- ouvi alguém dizer
- “O tempo perdido não pode ser encontrado.”
- pensando bem…
- o tempo perdido pode ser encontrado…
- mas o tempo que foi perdido e encontrado não pode…
- ser recuperado.
- na paragem…
- sempre ouço dizerem que
- “Tempo é Dinheiro.”
- mas quando se fala de “esperar pelo autocarro\"
- é “Tempo e Dinheiro.”
- olha ali…
- é aquele sem abrigo…
- ali do lado da paragem…
- a usar o guarda-chuva velho e gasto…
- para se guardar da chuva…
- deveria era estar a guardá-la…
- para caso ficar com sede e quiser saciá-la…
- é uma pena que sinto os pingos de chuva…
- mas não sinto um pingo de pena.
- aprendi que sentir pena de certos indivíduos…
- nem sempre vale a pena.
- porque ter pena…
- pode valer uma pena…
- mas ter pena…
- nem sempre vai valer a pena.
- falando em pena…
- aqui vai uma piada…
- se aquele mendigo matasse a sede…
- ao invés de saciá-la…
- resultaria em pena…
- por feminicídio.
- que piada seca…
- mas bem molhada.
- só espero que o autocarro chegue enquanto espero…
- e enquanto espero…
- fico a observar os passageiros a entrar e a sair do autocarro…
- enquanto uns descem…
- e outros sobem…
- penso e reflito…
- quem está a subir…
- pode estar a descer…
- e quem está a descer…
- pode estar a subir…
- pessoas diferentes…
- mas iguais…
- apanham o mesmo autocarro…
- com o mesmo destino…
- mas para destinações diferentes…
- mesmo se saírem na mesma paragem…
- forem para a mesma direção…
- em algum momento a direção deles…
- muda de direção…
- todos compartilham o mesmo medo…
- tropeçar…
- e cair.
- mesmo estando um a descer…
- e o outro a subir…
- só não tem medo quem está sentado…
- mas quem está sentado…
- um dia teve medo…
- e para ter deixado de ter medo…
- teve que se deixar ter medo…
- por um dia.
O autocarro que nunca chega…
21:08 PM
- talvez pare nesta paragem…
- talvez para na outra…
- ou talvez…
- devem ter mudado os horários?
- o que sei…
- é que já nem sei…
- nunca o vi passar…
- mas sei que ele passa…
- eu acho que se tentar apanhar o “777”.
- e em seguida apanhar o “???”.
- talvez possa conseguir chegar até ele…
- no terminal dos autocarros.
- pois é…
- no final de tudo a montanha não foi a maomé…
- né?
- maomé que sempre teve e terá de ir á montanha…
- Ah sim…
- o autocarro que estou à espera…
- tem como destino “Vitória”.
- o número dele é o “661”.
- reparei que os autocarros param…
- mas a chuva não parou em momento nenhum...
- foi a chuva que não parou…
- e o autocarro que nunca chegou.
21:19 PM
\"Ele não chegará a ti, se não chegares até ele.\"
- luminoso, o vitorioso.