O autocarro nunca chega…
20:28 PM
— Em vários horários
— Passam vários autocarros
— Menos o meu
— Eu acho que ele não deve estar a passar
— Por estar à espera dele
— Se parar de esperar por ele e me for embora
— Aí ele vai decidir passar
— Pelo menos na teoria
— Pelo mais na prática
— ”Quanto mais espero menos vou ter de esperar”
— E quando menos espero ele chega
— Tirei essa lá do “O Paradoxo da Espera do Autocarro”
— Falando nisso
— Será que depois deste tempo todo
— O autocarro dele já deve ter chegado?
— Qual dos dois autocarros ele deve ter apanhado?
— Acho que vou me deslocar até às paragens do lado
— Para ver os horários dos autocarros restantes
— Mas tenho receio de me afastar da paragem
— Porque assim ele pode chegar
— E eu vou perdê-lo.
— Ou ele vai perder-me.
— São apenas uns metros e alguns segundos
— Só que uns metros
— Podem-se tornar em uns quilómetros.
— Alguns segundos
— Em alguns minutos.
— E alguns minutos
— Em várias horas.
— Eu não quero correr atrás
— Caso eu não conseguir apanhá-lo a tempo
— Porque eu já corri muito atrás de autocarros
— Corri tanto
— Mas tanto
— Que mesmo assim
— Continuava atrás
— Mesmo estando à frente
— E acabava por ficar para trás
— Perdendo assim o autocarro.
— Um deles tinha o número “777”
— Com o destino “Oportunidade”
— Ele chegava às 7:07
— Mas só aparecia de vez em quando
— Para não dizer de vez em nunca
— Nunca o consegui apanhar
— Nem acho que irei.
— Agora só o observo passar
— O outro
— Não me lembro bem qual era o número
— Ou se tinha um número
— Quero dizer
— É suposto que todos os autocarros tenham números
— Mas o destino lembro-me que era “??? Tempo”
— É outro que só observo passar.
— Junto do “777 Oportunidade”
— Correr atrás desse autocarro
— Foi uma perda de tempo.
— Me consumiu o tempo
— E a energia
— Nem me lembro se estava a correr atrás dele
— A correr com ele
— Ou contra ele
— Bom que posso avisar os outros passageiros
— Que estão à espera do mesmo autocarro
— Para não perderem o tempo deles.
— Mas se eu continuar à espera
— Vou continuar a perder o meu tempo.
— Mas se parar de esperar
— Vou perder o autocarro.
— Tendo perdido assim o tempo
— E o autocarro.
— Por falar em tempo
— Aqui vai uma filosofia sobre o tempo
— O tempo só quer passar
— E ser bem passado no presente
— Para no futuro ficar presente
— No passado.
— Filosófico
— Repara naquele homem idoso
— Sentado na paragem do outro lado da rua
— Será que envelheceu
— Por ter parado para esperar?
— Ou
— Por ter parado de esperar?
— Bom
— De qualquer das formas
— Foi o tempo.
— Parar para esperar
— E parar de esperar
— São coisas iguais
— Mas diferentes.
— Porque quem abandonou a paragem
— Escolheu parar de esperar pelo autocarro
— E quem embarcou
— Também escolheu parar de esperar
— Para embarcar no autocarro.
— É melhor eu continuar a esperar
— Realisticamente falando
— Eu não parei de esperar
— Mas parei
— Para continuar a esperar.
— Normalmente
— Desistir vai significar parar
— Mas por vezes
— Parar nem sempre vai significar desistir.
— Ontem no autocarro
— Ouvi alguém dizer
— “O tempo perdido não pode ser encontrado.”
— Pensando bem
— O tempo perdido pode ser encontrado
— Mas o tempo que foi perdido e encontrado não pode
— Ser recuperado.
— Na paragem
— Sempre ouço dizerem que
— “Tempo é Dinheiro.”
— Mas quando se fala de “esperar pelo autocarro\"
— É “Tempo e Dinheiro.”
— Olha ali
— É aquele sem abrigo
— Ali do lado da paragem
— A usar o guarda-chuva velho e gasto
— Para se guardar da chuva
— Deveria era estar a guardá-la
— Para caso ficar com sede e quiser saciá-la
— É uma pena que sinto os pingos de chuva
— Mas não sinto um pingo de pena.
— Aprendi que sentir pena de certos indivíduos
— Nem sempre vale a pena.
— Porque ter pena
— Pode até valer uma pena
— Mas ter pena
— Nem sempre vai valer a pena.
— Falando em pena
— Aqui vai uma piada
— Se aquele mendigo matasse a sede
— Ao invés de saciá-la
— Resultaria em pena
— Por feminicídio.
— Que piada seca
— Mas bem molhada
— Só espero que o autocarro chegue enquanto espero
— E enquanto espero
— Fico a observar os passageiros a entrar e a sair do autocarro.
— Enquanto uns descem
— E outros sobem
— Penso e reflito
— Quem está a subir
— Pode estar a descer.
— E quem está a descer
— Pode estar a subir.
— Pessoas diferentes
— Mas iguais.
— Apanham o mesmo autocarro
— Com o mesmo destino
— Mas para destinações diferentes.
— Mesmo se saírem na mesma paragem
— E forem para a mesma direção
— Em algum momento a direção deles
— Muda de direção.
— Todos compartilham o mesmo medo
— Que é de tropeçar
— E cair
— Mesmo estando um a descer
— E o outro a subir
— Só não tem medo quem está sentado
— Mas quem está sentado
— Um dia teve medo
— E para ter deixado de ter medo
— Teve que se deixar ter medo
— Por um dia
O autocarro que nunca chega…
21:08 PM
— Acho que para nesta paragem.
— Talvez pare na outra.
— Ou talvez
— Os horários devem ter mudado?
— O que sei
— É que já nem sei
— Nunca o vi passar
— Mas sei que ele passa
— Eu acho que se tentar apanhar o “777”
— E em seguida apanhar o “???”
— Talvez possa conseguir chegar até ele
— No terminal dos autocarros
— Pois é
— No final de tudo a montanha não foi a maomé
— Né?
— Maomé que sempre teve e terá de ir á montanha
— Ah sim
— O autocarro que estou à espera
— Tem como destino “Vitória”.
— O número dele é o “661”.
— Reparei que os autocarros param
— Mas a chuva não parou em momento nenhum.
— Foi a chuva que não parou
— E o autocarro que nunca chegou.
21:19 PM
\"Ele não chegará a ti, se não chegares até ele.\"
- luminoso, o vitorioso.