O espelho é testemunha do meu pranto sem fim,
ele sabe por que razão correm as minhas lágrimas,
porque as pessoas deram-me tão pouco de si,
e eu dei-lhes tanto de mim.
A cadeira é testemunha da minha discussão,
tantas vezes que fui contra ela.
Porque sofri uma agressão,
eu estava em cena.
Era para ser uma pequena bofetada,
mas tornou-se algo mais sério.
Mais do que um ato cénico,
uma mão pesada.
O telemovel conhece mensagens nunca enviadas,
mensagens que escrevi com um sorriso no rosto,
mensagens que apaguei sem nenhum remorso.
Mensagem enviada?
Remetente morto!
A cama sabe quantas noites passei acordado,
ela diz que foram mais do que aquelas que eu poderia ter imaginado.
Eu não duvido, eu admito:
nem há um número exato para aqueles que passam a noite acordados.
Ela tem o nome gravado da pessoa que amo nos lençóis.
Estou em maus lençóis, concluo.
Na cama, sou tudo menos um super-herói.
Há uma porta que viu pessoas a entrar e a sair.
Essa porta é aquela em que chega a nossa hora,
a porta da memória.
E nessa porta nem toda a gente mora:
algumas desaparecem consoante o desenrolar da história,
enquanto outras, que nunca fizeram parte,
batem mais forte cá dentro
do que lá fora.
A fotografia...
A fotografia congelou um momento,
feliz ou não, congelou.
E eu tenho de meter na minha cabeça
que é melhor deixar o que está para trás.
Se eu não o fizer,
eu nunca terei paz.
E eu quero paz, paz, paz,
e só a terei quando virar a página.
Neste álbum de fotografias,
o importante é nunca virar a página para trás,
mas sempre para a frente.
Sempre que seguimos em frente,
estamos a um passo do céu.
Eu rasgo o céu,
eu só fico para lembrança.
Eu começo na foto de criança
e termino na foto de ancião.
Que sorte que tenho:
uns já não podem,
e outros não anseiam esse ganho.
Hoje olhei-me ao espelho,
notei algumas mudanças,
talvez porque primeiro se estranha,
mas logo se entranha.
O meu sorriso e o meu pranto mudaram
conforme a maneira como os via.
Eu via o sorriso como sol de pouca dura,
eu via o meu pranto como arco-íris
que ocorre depois da chuva.
Então foi isso:
ao início, tudo parece um bicho de sete cabeças,
mas depois, com experiência e vivência,
conseguimos separar as diferenças
e perceber que há mais o que nos une
do que aquilo que nos separa.
Hoje o espelho diz-me na cara,
com beleza rara,
ninguém se compara.
Comparação é para fracos de espírito,
confiança é para aqueles que acreditam no processo,
e ele é tudo o que eu peço.
O telefone ainda tem o teu número marcado,
pois tu marcaste o meu telefone,
marcaste-o sem marcar.
Sem um único número,
conseguiste que ele se tornasse infinito.
Eu não sei o que tu fazes,
mas o meu telemóvel está com problemas.
Já mandei fazer uma revisão,
mas ele não apresenta legendas.
A gaveta guarda memórias,
cartas que escrevi,
fotografias de tempos que já não voltam,
objetos que já partiram.
O espelho...
O espelho partiu quando olhei para ele.
Eu acho que a gente até se divertiu,
pelo menos o pouco tempo que tivemos.
A beleza fugiu,
o espelho mentiu.
Só nós conhecemos esse amor doentio.
A gaveta guarda cartas,
cartas gastas de tinta,
que derramou no papel,
derramou o sabor amargo do fel.
Aquele fel que tem um sabor tão mau,
mas tão mau,
que uma vez que provas,
já não queres mais.
Tiras o anel,
olhas para a fotografia
e rasgas na frente do Pai Natal.
Os sapatos sabem por onde andei,
eles não contam incertezas,
eles contam factos,
e contra factos não há argumentos.
Sabem que fugi da terra
e que fui dar uma volta.
Caminhei no ar
e dei de caras com o amor,
ou devo dizer com o Cupido?
Não precisei de flecha para ser seduzido.
Eu também tenho as minhas apreciações,
sei o que quero,
sei o que não quero.
Sei que gosto de apalpar terreno,
sei que não gosto de ir com muita sede ao pote.
Por isso, nunca caminho por campos minados.
Vou por caminhos apertados,
que é como os teus e os meus sapatos:
atados.
A luz do quarto sorriu para mim,
e o que antes era escuridão ganhou uma nova cor,
uma cor viva que te seduz e estende a mão.
Quando não tens mais ninguém,
a escuridão sai sempre a perder
quando te levantas do chão.
O chão sabe que viveste preso pela escuridão,
sentado e sem querer cair na realidade.
Foste apanhado numa cena errada,
sem guião,
sem contracena.
És um mero espetador.
A plateia está vazia,
precisa de ti,
e tu precisas dela.
Talvez os papéis tenham trocado de posição
e agora estás preso na plateia,
não por medo,
mas por imposição.
Deixa que os palhaços façam o seu circo,
assiste ao fogo,
porque tu és isso:
tu és a peça fundamental do jogo,
o jogo dos objetos.
E tu...
aposto que já foste boneco nas suas mãos.