Aira Lirien

A Luz Pela Fechadura

Eu não entro.  

 

Eu espreito.  

 

Encosto o olho na ferida redonda da porta  

 

e o mundo vira um círculo pequeno demais.  

 

Feixe de luz atravessa a fechadura  

 

e morre no chão.  

 

Pó dança sozinho.  

 

O ar aqui dentro já aprendeu a não fazer barulho.  

 

Do lado de lá uma luz que atravessa a fechadura e corta meu peito deixa uma marca queimando como cicatriz, e arde sem esperança de não doer mais.

 

Na frente da porta que não abre pra mim nem que eu arrombe,  

 

e era a porta da minha casa.  

 

A chave que eu guardei virou enfeite.  

 

A maçaneta gasta do meu dedo  

 

continua esperando uma mão que não é a minha.  

 

Eu bato baixo. De leve.  

 

Como quem pede desculpa por existir.  

 

E o silêncio responde mais alto.  

 

Eu sei que não vai abrir.  

 

E mesmo assim eu volto todo dia.  

 

Porque teimosia também é forma de amar.  

 

Porque esperar virou osso no corpo.  

 

Porque se eu sair daqui  

 

vou ter que admitir  

 

que o amor passou  

 

e não escolheu ficar. 

 

Então eu fico.  

 

Conto as frestas de luz, aprendo a viver de metade.  

 

De sombra.  

 

De um \"talvez\" que nunca chega  

 

mas que me segura de pé.  

 

E é só uma fresta de luz  

 

que atravessa a fechadura  

 

de uma porta que não abre pra mim  

 

de um mundo que escolheu não ser meu