Eu não entro.
Eu espreito.
Encosto o olho na ferida redonda da porta
e o mundo vira um círculo pequeno demais.
Feixe de luz atravessa a fechadura
e morre no chão.
Pó dança sozinho.
O ar aqui dentro já aprendeu a não fazer barulho.
Do lado de lá uma luz que atravessa a fechadura e corta meu peito deixa uma marca queimando como cicatriz, e arde sem esperança de não doer mais.
Na frente da porta que não abre pra mim nem que eu arrombe,
e era a porta da minha casa.
A chave que eu guardei virou enfeite.
A maçaneta gasta do meu dedo
continua esperando uma mão que não é a minha.
Eu bato baixo. De leve.
Como quem pede desculpa por existir.
E o silêncio responde mais alto.
Eu sei que não vai abrir.
E mesmo assim eu volto todo dia.
Porque teimosia também é forma de amar.
Porque esperar virou osso no corpo.
Porque se eu sair daqui
vou ter que admitir
que o amor passou
e não escolheu ficar.
Então eu fico.
Conto as frestas de luz, aprendo a viver de metade.
De sombra.
De um \"talvez\" que nunca chega
mas que me segura de pé.
E é só uma fresta de luz
que atravessa a fechadura
de uma porta que não abre pra mim
de um mundo que escolheu não ser meu