Em mim há um grande ardor,
um anseio em sentir-me viva,
mas esse fervor logo dissipou-se.
Ventos ocultos adentraram
entre as rachaduras da minha vida,
causadas pelo tempo
e pelas pessoas.
O grito que foi silenciado,
a dança que foi interrompida,
a alegria que foi desfeita
e o sentimento de pertencimento
destruído.
Fui esmagada, despedaçada,
não restando nada a ser extraído,
somente o amargor.
Meu luto parece eterno,
meu fim, próximo,
e não há nada a ser feito.
Angústia que corrói os ossos,
o corpo que se encontra enfermo
e as ataduras que sangram.
Beijo a garrafa desesperadamente,
querendo mais uma dose de fel
disfarçado de calor.
Chamem-no de uísque.
Penso que, embriagada,
esquecerei toda a dor,
e que um novo dia
se apresentará a mim.
Mais uma vez, vejo-me infeliz,
presa em um ciclo que insiste
em se repetir,
me arrastar
e, no fim, me consumir.
Anestesio minha dor em cada gole,
enganando a mim mesma
sem nenhum pudor.
Depois de tanto sofrer,
aceitei meu triste fim,
dando adeus a este limbo.
Assumi com lágrimas nos olhos,
que minha incessante busca
foi a causa da minha morte.
Talvez, em outra vida,
o universo se lembre de mim,
e devolva a faísca da vivacidade
que o mundo apagou.