Ymaira Von

ALMA EMBEBIDA EM FEL

Em mim há um grande ardor,
um anseio em sentir-me viva,
mas esse fervor logo dissipou-se.

Ventos ocultos adentraram
entre as rachaduras da minha vida,
causadas pelo tempo
e pelas pessoas.

O grito que foi silenciado,
a dança que foi interrompida,
a alegria que foi desfeita
e o sentimento de pertencimento
destruído.

Fui esmagada, despedaçada,
não restando nada a ser extraído,
somente o amargor.

Meu luto parece eterno,
meu fim, próximo,
e não há nada a ser feito.

Angústia que corrói os ossos,
o corpo que se encontra enfermo
e as ataduras que sangram.

Beijo a garrafa desesperadamente,
querendo mais uma dose de fel
disfarçado de calor.
Chamem-no de uísque.

Penso que, embriagada,
esquecerei toda a dor,
e que um novo dia
se apresentará a mim.

Mais uma vez, vejo-me infeliz,
presa em um ciclo que insiste
em se repetir,
 me arrastar
e, no fim, me consumir.

Anestesio minha dor em cada gole,
enganando a mim mesma
sem nenhum pudor.

Depois de tanto sofrer,
aceitei meu triste fim,
dando adeus a este limbo.

Assumi com lágrimas nos olhos,
que minha incessante busca
foi a causa da minha morte.

Talvez, em outra vida,
 o universo se lembre de mim,
e devolva a faísca da vivacidade

que o mundo apagou.