Há jardins que apodrecem de tanta beleza
— e eu os invejo.
A luz hesita,
como quem pede licença para morrer.
O banho me devolve em corpo estranho,
úmido de pressentimentos.
O espelho não repete ninguém:
morde minha própria boca.
Rituais são feridas bem educadas.
Vestem-se de gestos, sorriem para o nada,
enquanto a vida, cínica,
aplaude devagar com luvas de pelica.
Cães de olhos vermelhos farejam deuses
e encontram apenas ossos.
Mas que importa?
A esperança é uma porta torta
aberta para dentro.
O absurdo, esse velho amante,
me conduz pelo pulso.
E eu deito com ele — feliz, lúcida —
entre ruínas que florescem.
Eis o instante:
uma fruta mordida no escuro.
O sumo escorre.
É pouco. É quase nada.
É o bastante.
O silêncio tem sede
de Ayalah Verônica Berg