gustavoaln

Mil sois

Dizem que existe um fio invisível
ligando aqueles que, de algum modo,
estavam destinados a se encontrar.

Talvez seja por isso
que, naquela manhã,
entre portas, passos e acaso,
meus olhos encontraram os seus.

Por alguns segundos,
o tempo pareceu suspenso.

E havia ouro nos seus cabelos,
pequenos sóis repousando sobre os ombros,
enquanto o violeta se escondia entre eles,
como um pedaço do crepúsculo
que ainda não havia ido embora.

Eu ergui os olhos às estrelas
e fui tomado pela gloriosa luz de mil sóis.

E talvez tenha sido essa luz
que me fez lembrar
que algumas estrelas
simplesmente aparecem
quando já não estamos procurando por elas.

não era alguém
que eu esperava encontrar.

Era outra luz,
outra história,
outro caminho.

E talvez o fio invisível
não exista para nos levar imediatamente
ao lugar onde queremos chegar.

Talvez ele apenas nos faça cruzar caminhos,
deixando que o tempo decida
o que fazer de cada encontro.

Por isso, se hoje houver distância,
eu não quero cortá-lo.

Não quero puxá-lo,
nem forçá-lo a me trazer até você.

Quero apenas deixá-lo existir.

Porque talvez você esteja cansada,
talvez ainda esteja juntando
os pedaços de dias difíceis,
talvez precise de tempo
para voltar a florescer.

E eu não quero ser a mão
que exige que uma flor desabroche.

Quero ser apenas alguém
que contempla sua primavera
quando ela decidir chegar.

Cegado por tal elegância,
que escolha tenho senão esperar
que meus olhos se acostumem à luz?

Então eu espero.

Não como quem fica parado
esperando ser escolhido,
mas como quem acredita
que algumas coisas bonitas
não precisam acontecer depressa.

Se esse fio realmente existe,
ele não precisa ser puxado.

Pode permanecer invisível,
silencioso,
atravessando os dias
entre nós.

E, quando você estiver pronta
para caminhar novamente,
talvez eu ainda esteja aqui.

Não porque precise de você
para encontrar a luz,

mas porque, entre todas as estrelas
que cruzaram meu céu,

a sua foi uma das poucas
que me fez querer olhar para cima novamente.