julianahoffmannliska

Onde os Mortos Ainda Amam

O fogo nasceu naquela noite.

Não no céu.

Não na terra.

Nasceu dentro de August.

Era um fogo antigo, vermelho como o último pôr do sol sobre o Pampa, quente como a lembrança de uma boca que ele já não podia beijar.

Havia séculos que seu coração estava morto.

Mas bastava pronunciarem o nome de Rosa Marcella para que alguma coisa dentro dele voltasse a arder.

Rosa.

O nome atravessava a escuridão.

E os mortos lembravam.

No velho penhasco, as almas começaram a surgir.

Primeiro, sombras.

Depois rostos.

Homens e mulheres esquecidos pelo tempo, vestidos com roupas de outras eras, caminhando lentamente entre a fumaça.

Nenhum deles falava.

Todos conheciam aquela noite.

Todos conheciam o amor que havia sobrevivido à morte.

August caminhou até o fogo.

As chamas subiram diante dele.

E então Rosa apareceu.

Não como fantasma.

Não como lembrança.

Mas como a mulher que ele havia amado.

Seus cabelos dançavam com o vento.

Seus olhos estavam molhados.

Nas mãos, carregava uma única rosa.

— Você demorou — ela disse.

August sorriu tristemente.

— Eu procurei você em todos os lugares.

— E eu estive em todos eles.

Ele estendeu a mão.

Rosa tocou seus dedos.

A pele dela estava fria.

A dele também.

Mas, quando se tocaram, o fogo cresceu.

As chamas iluminaram o penhasco inteiro.

Os mortos se aproximaram.

E pela primeira vez, aqueles que haviam perdido tudo testemunharam algo que nem a morte conseguira destruir.

Paixão.

A paixão dos que já não possuem um corpo.

O desejo dos que já não possuem amanhã.

O amor daqueles que perderam o direito de envelhecer, mas não perderam a capacidade de sentir.

August segurou Rosa pela cintura.

— Eu pensei que a morte fosse o fim.

Ela encostou a testa na dele.

— Não para nós.

O vento do Pampa soprou.

As chamas se inclinaram.

A noite inteira pareceu respirar.

E os mortos começaram a dançar.

Não era uma dança alegre.

Era uma dança de almas.

Uma celebração daqueles que haviam amado antes de morrer e continuavam amando depois.

August beijou Rosa.

O fogo subiu como uma tempestade.

Durante aquele instante, o mundo dos vivos e o mundo dos mortos se tocaram.

E todos compreenderam uma verdade terrível:

há amores que não morrem porque nunca pertenceram completamente à vida.

Eles pertencem ao infinito.

Rosa afastou-se lentamente.

— Quando o fogo apagar, você vai embora?

August olhou para as chamas.

— Não.

— Então onde iremos?

Ele segurou sua mão.

— Para onde os mortos ainda amam.

E os dois caminharam para dentro do fogo.

Não houve grito.

Não houve despedida.

Apenas duas sombras desaparecendo entre as chamas.

Na manhã seguinte, ninguém encontrou os restos do incêndio.

Somente uma rosa vermelha permanecia sobre a pedra do penhasco.

Ainda quente.

Ainda viva.

E, desde aquela noite, quando o vento sopra sobre o Pampa e o céu fica vermelho, dizem que duas figuras aparecem entre a fumaça.

August.

Rosa Marcella.

Caminhando lado a lado.

Porque há lugares onde a morte separa os corpos.

Mas não consegue separar as almas.

E há uma terra além da nossa,

onde o fogo nunca se apaga,

onde a paixão não envelhece,

onde o tempo não existe,

e onde os mortos...

ainda amam.