Oswaldo Jesus Motta

Outrora

O tempo não passa.

Passamos nós.

Entre um tique e outro do relógio,

vai-se a vida,

como a sombra que se estende

quando a tarde desaprende a luz.

O relógio não se apressa.

Não conhece despedidas,

não sabe de chegadas.

Cumpre, indiferente,

seu antigo ofício de contar

aquilo que já não volta.

Ontem, éramos promessa.

Hoje, somos memória

em constante construção.

Amanhã — quem sabe? —

seremos apenas um nome

na lembrança de alguém

que talvez nem saiba

quanto fomos.

Ainda assim,

o tempo não leva tudo.

Deixa nas coisas

um pouco de nós:

numa fotografia esquecida,

numa palavra que ficou,

na cadeira vazia

diante da janela,

na tarde que retorna

sem jamais ser a mesma.

Talvez o tempo jamais tenha passado.

Talvez sejamos nós

que, distraídos,

atravessamos seus dias

como quem atravessa um rio

sem perceber a água.

E quando enfim julgamos

compreendê-lo,

já somos outros.

O que ficou para trás

não foi o tempo.

Fomos nós.