O tempo não passa.
Passamos nós.
Entre um tique e outro do relógio,
vai-se a vida,
como a sombra que se estende
quando a tarde desaprende a luz.
O relógio não se apressa.
Não conhece despedidas,
não sabe de chegadas.
Cumpre, indiferente,
seu antigo ofício de contar
aquilo que já não volta.
Ontem, éramos promessa.
Hoje, somos memória
em constante construção.
Amanhã — quem sabe? —
seremos apenas um nome
na lembrança de alguém
que talvez nem saiba
quanto fomos.
Ainda assim,
o tempo não leva tudo.
Deixa nas coisas
um pouco de nós:
numa fotografia esquecida,
numa palavra que ficou,
na cadeira vazia
diante da janela,
na tarde que retorna
sem jamais ser a mesma.
Talvez o tempo jamais tenha passado.
Talvez sejamos nós
que, distraídos,
atravessamos seus dias
como quem atravessa um rio
sem perceber a água.
E quando enfim julgamos
compreendê-lo,
já somos outros.
O que ficou para trás
não foi o tempo.
Fomos nós.