Hoje, ao chegar,
eu não procurava nada.
Apenas atravessei a porta
como quem atravessa mais um dia,
até que dois olhos encontraram os meus
por alguns segundos
e o mundo pareceu cometer
uma pequena crueldade.
Havia ouro sobre seus ombros,
fios de um sol que eu conhecia,
mas que não era o mesmo sol.
E, por um instante,
meu coração, tolo e cansado,
confundiu uma estrela
com outra.
Eu toquei nas estrelas
e vi a gloriosa luz de mil sóis.
Vi o dourado dos cabelos,
o violeta perdido entre os fios,
e naquela luz reconheci
uma sombra que ainda carregava comigo.
Não era ela.
Mas havia nela
qualquer coisa que me fez lembrar
de quem um dia eu quis
como se querer fosse suficiente
para fazer alguém ficar.
E talvez seja essa
a verdadeira crueldade da luz:
ela não precisa ser a mesma
para iluminar a mesma ferida.
Agora caminho
com os olhos semicerrados,
tentando não procurar
no rosto de outras mulheres
aquela que não ficou.
Cegado por tal elegância,
que escolha tenho
senão buscar a escuridão?
Mas talvez eu tenha outra escolha.
Talvez eu possa fechar os olhos
não para fugir da luz,
mas para finalmente enxergar
aquilo que ela escondia:
que eu não perdi todas as estrelas.
Apenas descobri
que algumas luzes
não nasceram para ser minhas.
E talvez, algum dia,
eu encontre uma que não precise perseguir.
Uma que permaneça acesa
sem que eu precise implorar
para não ficar no escuro.