Freddie Seixas

O Simples Também Me Faz Falta...

Às vezes eu vejo a felicidade sentada na calçada de um bar.
Uma cerveja na mesa,
um pedaço de carne no prato, uma risada atravessando a noite,
alguém contando uma história que provavelmente
já foi contada outras dez vezes.
E penso: talvez a vida seja isso.
Não o carro novo, não a casa grande, não o dinheiro sobrando, não os lugares bonitos para fotografar.
Talvez viver seja ter com quem dividir uma sexta-feira qualquer.
É poder falar merda sem medo, rir até faltar ar,
ouvir a história de alguém
e esquecer por algumas horas a própria história.
Eu nunca precisei de muito.
O Freddie Seixas sempre foi homem de coisa simples.
Uma conversa na calçada.
Uma companhia sincera.
Um abraço que não tenha pressa de terminar.
Alguém que diga:
senta aí, fica mais um pouco, me conta seu dia, me fala seus medos...
Engraçado é que passei boa parte da vida sendo o cara que escuta.
O que recebe os problemas dos outros, que pensa junto, que oferece caminhos quandp alguém já não sabe por onde ir.
E quase sempre funciona.
As pessoas vão embora melhores.
Resolvem seus problemas,
voltam a sorrir,encontram seus caminhos.
E eu fico...
Não porque eu queira ser indispensável.
Mas porque, às vezes,
quando chega a minha vez de precisar de alguém,
parece que todos já estão ocupados demais
vivendo a felicidade que eu ajudei a reconstruir (e não me arrependo)
Talvez seja injusto pensar assim...
Porque também houve quem estendesse a mão e eu não soube segurar..
Houve quem quisesse ficar
e eu estava ocupado demais tentando sobreviver às minhas próprias tempestades.
E houve alguém que eu queria mais do que qualquer outra pessoa
ao meu lado, mas que, quando precisou escolher,
escolheu outra pessoa para partilhar sua alegria.
E talvez essa seja uma das partes mais difíceis
de amadurecer: entender que amar alguém não faz dessa pessoa uma obrigação.
Que querer não é possuir.
Que estar disponível
não garante reciprocidade.
E que, às vezes,
a pessoa que a gente mais queria na mesa
está sentada em outra.
Dói.
Mas a vida também é isso.
A gente não recebe tudo
conforme deseja.
Recebe o que consegur.
Perde o que não consegue segurar e aprende, aos poucos,
a continuar caminhando
com aquilo que ficou.
Por isso, quando vejo aqueles homens
sentados na frente de um bar, bebendo cerveja e rindo de qualquer coisa,
eu não invejo a cerveja.
Invejo a mesa.
Aquela pequena reunião de pessoas que escolheram estar umas com as outras
naquela noite.
Porque talvez seja esse o luxo que o dinheiro não compra: ter alguém para ligar sem precisar de motivo.
Ter alguém que pergunte
você está bem?
e realmente queira ouvir a resposta.
Ter onde chegar
sem precisar fingir que está tudo bem.
E talvez o Freddie Seixas ainda esteja aprendendo
que não precisa ser forte o tempo inteiro.
Que também pode sentar.
Também pode rir.
Também pode contar seus problemas.
Também pode ser cuidado.
E enquanto essa mesa não aparece, eu vou tentando viver.
Do jeito que dá.
Com o sofrimento que cabe em mim,vcom as ausências que não escolhi,
com os erros que são meus, com as pessoas que ficarame com aquelas que escolheram partir.
Porque no fim, talvez viver seja exatamente isso:
aceitar que algumas cadeiras sempre estarão vazias, mas ainda assim
puxar uma cadeira, abrir uma cerveja, olhar para o lado e agradecer por quem decidiu ficar.

Por Freddie Seixas