Tenho visto tantos corações
à procura de um “relacionamento sério”,
como quem procura uma palavra
que caiba perfeitamente na descrição de um perfil.
É curioso.
Queremos o amor,
mas, às vezes, oferecemos apenas presença passageira.
Pedimos profundidade
com os pés sempre na margem.
Desejamos raízes,
mas temos medo da terra.
Dizemos querer alguém para ficar,
mas nos assustamos quando o outro chega perto demais.
Queremos colo,
mas não sabemos permanecer quando é a nossa vez de acolher.
Talvez os poetas tenham razão
quando dizem que o amor não acontece apenas no encontro.
Ele acontece no depois.
No café que esfria sobre a mesa
enquanto duas pessoas continuam conversando.
Na mão que procura outra mão
quando a noite parece grande demais.
No silêncio que não constrange.
No abraço que não pede explicação.
Na escolha de ficar
quando já não existe a novidade do primeiro olhar.
Porque relacionamento não é fotografia bonita,
nem legenda acompanhada de um coração vermelho.
É construção.
É aprender o mapa das cicatrizes de alguém
sem usar suas feridas como caminho de fuga.
É conhecer seus medos
e ainda assim escolher delicadamente ficar.
Talvez o que falte não seja gente procurando amor.
Talvez falte gente disposta a sustentá-lo.
Porque amar é fácil quando o peito amanhece em primavera.
Difícil é permanecer
quando chegam os invernos.
E talvez seja justamente aí
que descobrimos a diferença entre quem apenas procura um relacionamento
e quem, de verdade,
procura alguém para construir uma vida.