Oswaldo Jesus Motta

Entre a Lua e o Mar

Pessoas passam

como o vento.

Outras ficam —

mesmo quando o tempo

já levou quase tudo.

Aprendi, quase sem querer,

que algumas presenças

não pedem explicação.

Existem para que o mundo

pareça um pouco menos escuro.

Você é dessas.

Um brilho que não se anuncia,

uma delicadeza que envolve,

como a lua sobre o mar:

tocando a água

sem pedir

que ela a retenha.

Talvez essa seja

a sua sabedoria —

iluminar

sem fazer ruído.

Já vi o tempo passar,

os anos mudarem de rosto,

as certezas perderem o nome.

Porém há encontros

que o tempo não envelhece.

Apenas aprofunda.

Por isso, quando penso em você,

não penso em posse,

nem em promessa.

Penso no mar

que recebe a lua

e a devolve ao céu

sem jamais aprisioná-la.

Penso na luz

que atravessa uma janela

e segue adiante,

mas deixa o quarto

um pouco diferente.

Quem sabe seja isso

que torna certas pessoas

inesquecíveis?

Não precisam ser presença diária

para habitar, silenciosamente,

algum lugar dentro de nós.

Há pessoas que a vida

não explica.

Apenas coloca no caminho

e, muitos anos depois,

ainda estão ali —

como uma luz esquecida

acesa na janela.

E quando você visita a minha saudade,

é assim que acontece:

entre a lua e o mar,

entre o tempo e a memória.

Não pede nome.

Não pede resposta.

Não pede nada.

Encanta.