— Vovô, qual é o sentido da vida?
Perguntou o menino, com seus olhos de estrelas.
— Estude, seja bem-sucedido.
Se esforce muito e conseguirá o que quiser.
Eis aí o sentido.
— Mas e o senhor, vô, conseguiu o que quis?
O velho sentiu a maldade carregada na voz do menino,
Mas sabia ser apenas sua cabeça o enganando
E respondeu, voltando a ler seu livro.
— Eu não me esforcei, filho, não me orgulho disso.
Por cima das páginas, o rosto do garoto emergiu
O encarando com seus olhos gigantes
Repletos de curiosidade.
— Então como sabe que esse é o sentido?
A testa enrugada do vô o contemplou de cima
Como quem se chateava com perguntas tão insistentes.
— O sentido da vida, certamente, não é o que cometi na minha.
Troquei tudo pela alegria imediata, e o que conquistei
Foram só saudades do que eu havia.
— Por que a alegria imediata é ruim?
— Porque ela trará a tristeza futura.
— Mas vô... o senhor está me dizendo
Que devo trocar uma felicidade por outra?
O sentido da vida é ser triste
Em busca de felicidade?
O menino parou ao ouvir a tosse mortífera
Que o velho produziu
E depois de segundos de silêncio
Continuou, com uma voz amena.
— Isso não faz sentido.
— Ora, mas é claro que faz.
O velho se levantou, se apoiando em sua bengala
Segurou seu neto nos ombros, mostrando a ele seu entorno.
— Cada uma dessas coisas foram conquistadas
Por alguém que se dispôs a se sacrificar
Para um dia ser feliz.
Sem sacrifícios não há dinheiro
Sem dinheiro não há conquista.
O garoto perscrutou calado pela sala
Por cada um dos objetos que o rodeava
Sem saber o que mais falar.
Mas algo dentro dele gritava,
Sem saber por que,
Que aquilo não era certo
Não era.
— Entendi, vô! Obrigado por me ensinar.