Minha infância des-temida.
Ninho de Gato
Julian Lael
O mundo começava onde a terra batida do quintal encontrava os pés descalços. O barraco de madeira, com suas janelas baixas que pareciam espiar o terreiro dominado por patos, galinhas e o barulho do chiqueiro, era cercado por ripas simples de madeira. Logo na frente, esticava-se o varal de arame farpado. As farpas, feitas para afastar, ali ganhavam o capricho das mãos de Maria: serviam para prender e secar ao sol os pesados tapetinhos de retalho, cortados em formato oval, que o povo na sua crueza chamava de \"tapetinhos de buceta\". Era o retrato exato daquela vida: a crueza do arame e o aconchego dos panos.
Lá dentro, quando o frio da madrugada passava de mansinho pelas frestas das tábuas, a iluminação morria no pavio da lamparina. Era a hora do ninho de gato. Na única cama do quarto, dormiam todos embolados os três irmãos: Dodge, o mais velho; Pato, o do meio; e o Cão, o caçula da casa. Braços e pernas se cruzavam na falta de espaço e no excesso de união. Se um se virava, todos se mexiam juntos. O cobertor era curto, mas o calor dos corpos resolvia o que a pobreza não conseguia dar. Mas aquele aperto era mais do que busca por calor; era um refúgio de sobrevivência. Naquela cama, os irmãos se protegiam do verdadeiro perigo que rondava o barraco.
O terror tinha dia e hora para chegar. Todo final de semana, o pai, conhecido por Pepei, retornava para casa bêbado feito uma porca, transformando o lar em um inferno de crueldade. Cruel e cachaceiro, Pepei ameaçava a família o tempo todo: gritava que ia se matar, que mataria a todos ou que iria embora para Minas, deixando os filhos no desamparo.
Os espancamentos contra a esposa, Maria, e os meninos eram rotineiros e violentos. A ignorância e a maldade ganhavam requintes de tortura quando, em meio aos porres, Pepei obrigava os filhos a ficarem completamente pelados, de castigo, ajoelhados em cima de caroços duros de milho por horas a fio. Naquelas noites escuras, o homem clamava e chamava pela morte em seus delírios alcoólicos. Hoje, aos 89 anos de idade, o velho Pepei definha lentamente na cama, resistindo com unhas e dentes justamente àquela que ele passou a vida inteira chamando.
O dia amanhecia com o estalar dos gravetos no fogão a lenha, que aquecia a casa e anunciava o café preparado por Maria, a mãe sobrevivente. A água pura, com gosto de frescor, vinha do filtro de barro e da moringa sempre à sombra, abastecidos pela robusta caixa-d\'água quadrada de cimento no quintal. Logo se ouvia a buzina da bicicleta do padeiro, equilibrando uma cesta gigante cheia de pão fresco. Quando sobrava um trocado, o destino era a vendinha da esquina. O balcão de vidro era um reino mágico de maria-mole, bala soft, mariola, geleia no saquinho, suspiro, cocada baiana, pé de moleque e quebra-queixo. E quando o bolso estava vazio, a criatividade adoçava a boca: comia-se tomate com açúcar ou colheradas de açúcar misturado com farinha.
A infância também acontecia no grito e na poeira da rua, longe dos olhos do agressor. O céu ficava colorido de pipas e o chão estalava com o pião. A molecada se dividia entre pular corda, queimada, cabo de guerra, bota e garrafão. Tinha o ritmo do bate-begue, o vai-e-vem de plástico, o bilboquê e a velocidade dos carrinhos de rolimã na ladeira ou dos carrinhos feitos de lata de óleo vazia com rodinhas de sandália velha.
As pipas, aliás, exigiam suor e dedicação. Em um domingo bem cedo, por volta das nove da manhã, o céu estava limpo quando o teste começou. A pipa havia sido construída com orgulho na noite anterior por Dodge: papel de seda colorida e uma rabiola longa feita de sacola de lixo. Estava alta, linda no azul. Foi quando surgiu o Netão. Ele estava voltando da missa matinal com a roupa de domingo, mas a pose era a de sempre: branco, forte, gordo, tirado a fortão e extremamente folgado.
Sem pedir licença, Netão agarrou a linha esticada, arrebentou-a da mão do dono e anunciou que ia soltá-la. O aviso foi dado curto e grosso por Dodge: \"Não faz isso. Suei muito para comprar a linha e fazer a pipa. Se você soltar, vou te cobrir de porrada\". O folgado não acreditou na força de quem já enfrentava monstros muito piores em casa. O resultado foi um céu sem pipa, o Netão com o olho roxo e um silêncio que dura até hoje. Na rua, o respeito se pagava caro.
Mas o verdadeiro refúgio da alma morava na saudade dos avós maternos, os pais de Maria, que traziam o contraponto de amor daquela infância dura. Eles eram o retrato da perfeição na pobreza: ela, uma mulher branca de descendência italiana; ele, um homem negro orgulhoso de sua descendência escrava. Juntos, formavam um casal impecável e os melhores avós que os meninos poderiam ter. À luz difusa da lamparina, o tempo parava para ouvi-los contar causos antigos e histórias arrepiantes de assombração na roça, que faziam a espinha gelar e o corpo procurar o aconchego dos mais velhos.
Daquela convivência na roça, ficavam também as marcas da inocência. Como no dia em que o neto, sem entender nada da vida, viu pela primeira vez dois cachorros cruzando no meio do terreiro. Curioso e puro, correu para perguntar à avó o que era aquilo. Sem jeito e com a severidade típica da época, a italiana cortou o assunto de imediato: \"Para de falar besteira, menino! Os cachorros estão apenas amarrados!\". Dodge aceitou a resposta, guardando na memória a graça daquela ingenuidade que os avós faziam questão de proteger.
Para a escola pública, a dignidade ia na carcaça. Sem mochilas coloridas, os cadernos sem arame doados pelo governo eram carregados com cuidado dentro de uma sacola de arroz Filé. Nos pés, usava-se o Conga e, mais tarde, o Kichute, com o cadarço longo dando três voltas na canela. O uniforme era de tergal, duro e cheio de botões para fechar na pressa da manhã.
As marcas da violência, porém, seguiam o menino até na escola. No Polivalente da Glória, durante o sexto ano, após uma reprovação, Maria cruzou os portões disposta a descarregar a frustração daquela vida miserável em um espetáculo público. A surra aconteceu ali dentro da escola, sob os olhares de colegas e professores, desferida com o cabo grosso e pesado da tomada do ferro elétrico. Cada pancada trazia o peso de uma vergonha exposta, uma humilhação desnecessária que doeu na alma muito mais do que no corpo, repetindo fora de casa o ciclo de dor que vinha do lar.
Mas o destino daquela história mudou pela força do irmão mais velho. Dodge cresceu determinado a quebrar as correntes daquela miséria e se tornou o exemplo da casa. Moreno, alto e magro, ele tinha apenas 19 anos de idade quando começou a sua verdadeira história de lutas. Em 1989, por meio de um concurso público rigoroso, ele ingressou nas fileiras da Polícia Militar do Espírito Santo (PMES). O curso de formação de seis meses foi feito inteiramente às escondidas, longe dos olhos e da sabotagem do pai.
O grande dia da virada aconteceu logo após a formatura. Dodge chegou em casa orgulhosamente fardado. Pepei, ao dar de cara com o filho transformado em autoridade, ficou paralisado de surpresa e indignação. Enquanto o jovem soldado tomava o café da manhã à mesa, o velho, tentando manter a pose de valentão, perguntou com desdém se ele tinha virado \"samango\". A resposta de Dodge veio como um tiro certeiro, desarmando o agressor de uma vez por todas: \"Samango é a buceta da tua mãe, seu filho de uma puta\". Pepei arregalou os olhos, engoliu seco o próprio orgulho e voltou correndo, assustado, para o seu barracão de preguiça e miséria. Aquele foi o marco do fim do império do sofrimento e do medo.
“ Não pergunte do que sou capaz, dê-me a missão!”
Com a farda e a honra do trabalho, Dodge assumiu a responsabilidade de arrancar sua família daquele sofrimento. Sob o seu comando, o velho barraco de madeira ficou no passado; ele liderou a mudança de todos para um prédio de alvenaria digno. Foi ele quem garantiu a carne na mesa onde antes faltava mistura, transformando a mesa de Maria em um lugar de fartura.
Mais do que o sustento material, Dodge estendeu a mão para o futuro dos irmãos, incentivando e cobrando que Pato e Cão estudassem para vencer na vida. Porém, o mesmo sangue reage de formas diferentes às feridas do passado.
Enquanto o exemplo frutificou em um lado, encontrou terra seca no caçula. A ganância e a preguiça dominaram os passos do irmão mais novo, alimentando uma inveja corrosiva pelo sucesso do mais velho. De olho grande nas conquistas que Dodge alcançou com o próprio suor, o caçula escolheu o caminho do menor esforço e acabou colhendo o próprio fracasso.
A vida foi uma guerra difícil, cheia de privações, violência extrema e marcas profundas. Mas a história provou que, no fim, a carcaça formada na poeira da terra batida e defendida na honra da farda da PMES foi mais forte. Dodge venceu os monstros de Pepei, protegeu Maria, ergueu os seus e gravou seu nome como o verdadeiro alicerce daquela família.