Oswaldo Jesus Motta

Menina Levada

Desvia o olhar —

como quem se esquiva

da vida

por descuido.

Passa.

Me vê.

Finge

que não viu.

Eu também.

É a única língua

que aprendi

para não dizer

o que digo.

Há qualquer coisa

entre nós —

um silêncio

do tamanho

de um passo

que ninguém

se atreve a dar.

Talvez seja sonho.

Talvez vontade.

Ou apenas essa arte

de inventar distância

onde caberia

uma mão.

Se eu pudesse,

guardaria

um sorriso teu,

um segundo,

qualquer coisa

que tivesse

o teu jeito

de ficar.

Não pediria mais.

Porque há momentos

que nascem pequenos

e, justamente por isso,

cabem inteiros

dentro da memória.

Você passa.

Eu fico.

Agarro o que resta

como quem segura

um fósforo aceso

na palma da mão:

sabendo que queima,

sabendo que acaba,

e ainda assim

sem querer soltá-lo.

Porque, na paz inventada

do teu abraço,

eu deixaria de ser

metade

e talvez

nem precisasse

ser inteiro.

Bastaria

estar ali.