Gi.

Eles me odeiam

 

Eles me odeiam.

Eu sinto no olhar.

 

Mas talvez nem seja ódio.

Talvez seja só gente cansada

demais pra sorrir.

 

Cada um carregando um mundo nas costas,

fazendo conta no fim do mês,

engolindo desaforo no trampo,

voltando pra casa

sem saber se amanhã vai ser diferente.

 

Tem mãe criando filho sozinha,

pai escondendo dívida,

jovem procurando emprego

com diploma e fome,

velho trabalhando ainda

porque aposentadoria não paga o pão.

 

E eu aqui,

achando que aquela risada era sobre mim.

 

Todo mundo tem um inferno particular.

 

O cara no ônibus tá puto.

A mina na fila tá exausta.

O moleque da esquina

finge que tá tudo bem.

 

Ninguém pergunta.

 

Porque todo mundo tá ocupado

tentando sobreviver ao próprio problema.

 

E mesmo assim

a gente se julga.

 

Pelo tênis.

Pela roupa.

Pela cara.

Pelo jeito de falar.

Pelo lugar que veio.

 

Como se pobreza fosse defeito.

Como se tristeza fosse fraqueza.

Como se estar perdido

fosse escolha.

 

Eu vejo gente sorrindo

com boleto vencido.

 

Vejo gente trabalhando oito, dez, doze horas

pra continuar exatamente no mesmo lugar.

 

Vejo gente estudando cansada,

trabalhando cansada,

chegando em casa cansada,

dormindo cansada

e acordando já devendo energia pra vida.

 

E ainda chamam isso de rotina.

 

A cidade não para.

 

Mas tem gente parando por dentro.

 

E ninguém percebe.

 

Porque aqui você aprende cedo

a esconder o peso.

 

“Tá tudo bem.”

 

Mentira.

 

Não tá.

 

Nunca esteve.

 

Só que reclamar não paga aluguel.

Chorar não enche geladeira.

Descansar parece culpa.

E dizer “não aguento mais”

parece fraqueza.

 

Então todo mundo veste uma máscara.

 

Eu também.

 

Entro no lugar desconfiada,

achando que tão falando de mim.

 

Talvez estejam.

 

Talvez não.

 

Mas agora eu entendo:

 

tem gente tão ocupada

carregando o próprio caos

que mal consegue carregar o meu.

 

Então talvez eles não me odeiem.

 

Talvez estejam cansados.

 

Talvez eu esteja.

 

Talvez a gente inteiro esteja.

 

E talvez esse seja o verdadeiro peso:

 

não é só a minha cabeça,

não é só a minha história,

não é só a minha dor.

 

É um mundo inteiro

mandando a gente continuar

mesmo quando já não sabe

de onde tirar força.

 

E amanhã?

 

Amanhã tem trabalho.

 

Tem escola.

 

Tem conta.

 

Tem cobrança.

 

Tem gente esperando resultado

de quem mal conseguiu levantar da cama.

 

E mesmo assim...

 

a gente levanta.

 

Não porque é forte.

 

Porque a vida não pergunta

se você tá pronto.

 

Ela só abre a porta

e fala:

 

“Vai.”

 

Então eu vou.

 

Com medo.

 

Com raiva.

 

Cansada.

 

Desconfiada.

 

Mas vou.

 

Porque se a vida já pesa pra caralho,

 

eu não vou gastar o pouco de força que tenho

tentando descobrir

quem me odeia.

 

Vou guardar pra sobreviver.