Gino, Sinvaldo de Souza

Poema: Chão Rachado de Silêncio

Poema: Chão Rachado de Silêncio

O sol desce duro como sentença,  
e queima o sertão até virar pó.  
Fabiano anda calado, a espingarda na mão,  
Baleia vai na frente farejando o chão.  
A terra não dá, só cobra e consome,  
e o vento leva até o nome dos homens.  

Sinhá Vitória conta as coisas no dedo,  
sonha com cama de couro e louça na mesa.  
Os meninos crescem com a boca seca,  
aprendem cedo que palavra é tropeço.  
Deus, se existe, mora longe daqui,  
e a seca ensina a viver sem pedir.  

No fim é só estrada, poeira e partida.  
A mala pequena, o coração maior.  
Mas mesmo no exílio e na ferida  
há teimosia de brotar uma flor.  
Vidas secas, mas não vidas vazias:  
resistem, como raiz, debaixo da aridez.