Poema: Chão Rachado de Silêncio
O sol desce duro como sentença,
e queima o sertão até virar pó.
Fabiano anda calado, a espingarda na mão,
Baleia vai na frente farejando o chão.
A terra não dá, só cobra e consome,
e o vento leva até o nome dos homens.
Sinhá Vitória conta as coisas no dedo,
sonha com cama de couro e louça na mesa.
Os meninos crescem com a boca seca,
aprendem cedo que palavra é tropeço.
Deus, se existe, mora longe daqui,
e a seca ensina a viver sem pedir.
No fim é só estrada, poeira e partida.
A mala pequena, o coração maior.
Mas mesmo no exílio e na ferida
há teimosia de brotar uma flor.
Vidas secas, mas não vidas vazias:
resistem, como raiz, debaixo da aridez.