atrás de cada instante
— outro.
e entre um e outro
a mentira que nos salva.
chegas do mar
em silêncio.
deslizas, sussurras,
nem tocas a margem
— e já me cobras
o que não prometeste.
comemos o sal com os dedos
e pedimos mais.
não há desgraça:
sabemos
que o pior já passou
e o pior
é não ter pior nenhum.
ergue-se uma vela
firme.
do amor não se cansa
quem já não espera nada
— e ainda assim
estende a mão.
a tristeza é água parada
nunca seca.
onda pálida recua
não ousa
— triste.
mas quem disse
que sou eu a margem?
não sejas boa.
a bondade é um vício
dos que temem o próprio reflexo.
quem é de pedra
não fere
— mas também não sangra.
escolhe.
o barco range
a morte se instala nos esgotos
e apesar de tudo
— núpcias.
é isto que ninguém perdoa:
que a beleza insista
sem motivo.
somos o resto que resta
— um quase entre dois nadas.
e nesse quase
toda a revolta
e toda a graça.
quase
de Ayalah Verônica Berg