Anna Gonçalves

A poética da ferida

Não sabemos de onde viemos nem para onde a maré nos leva,

mas habitamos o intervalo, esse gigante território onde tudo se move...

Você não é apenas quem caminha pela casa,

é a própria casa, o jardim, o vento e a tempestade.

É o guardião silencioso de um ecossistema inteiro que pulsa no peito.

A vida é uma maré inconstante de altos e baixos,

um ciclo que respira subindo e descendo.

E na arquitetura do nosso estar no mundo,

a dor por vezes chega sem pedir licença,

ela é o impacto, a fagulha, o choque inevitável do existir.

Mas pare! E observe a ferida por um instante.. 

A vida lança a primeira flecha, rápida e afiada.

O martírio, porém, é o gesto involuntário

de pegar uma segunda flecha e fincá-la no mesmo lugar.

Não cabe acumular o ferro na carne,

cabe a coragem de retirar o que fere,

lavar a pele com água limpa e deixar o tempo regenerar.

Estranho é aceitar o sol sem perguntas,

mas exigir explicações de cada nuvem que passa.

Se o topo nos pertence, o vale também nos ensina a pisar.

Questionar apenas a sombra é esquecer que a luz precisa de espaço para pousar.

No fim, quando o barulho das dúvidas se cala,

resta a estrutura firme da sua própria presença,

este corpo que não é prisão,

mas o abraço mais antigo que a natureza te deu para atravessar o caminho.