Cá estou eu, proseando de dentro da minha cova. Para o meu terrível azar, essa maldição sempre volta. Maldita seja ela. Aqui estou eu, definhando, porém conversando, de dentro do meu túmulo. Ele tem um aspecto duro, vazio e frio, como meu cérebro - já em estado de decomposição - se sente. Minha carne está em putrefação, tornando os meus duros e largos ossos visíveis. Estou mole, frágil, indefeso. Em frangalhos, eu diria. O meu estado é ultrajante: um defunto, com a mente fragmentada em diferentes aspirações, tentando ser algo além de um mero cadáver decompondo-se no cemitério mais precário de sua cidade.
Olho por fora de meu buraco e vejo uma figura misteriosa se aproximando. Lá vem ele, aquele quem sempre junta as peças de meu corpo e o renova, transformando-o em uma amálgama de partes de defuntos desconhecidos. Antes de me entregar a profunda dor e escuridão, sibilo uma simplória frase, utilizando o pingo de disposição que ainda circula pelos meus ossos: \"quem me garante que não voltarei ao tumulo novamente?\". Ele suspira pesadamente, pensa no que dizer por alguns breves segundos e finalmente conclui: o ciclo de nascimento, vida e morte não tem fim\".