Freddie Seixas

Cartas de um Remetente Ferido


2- Para meu pai

E aí, pai. Tudo bem?

Eu queria começar dizendo que minhas lembranças da infância não são muitas quando penso em nós dois.
Vou precisar puxar algumas coisas lá do fundo da memória.
Talvez da infância a gente não tenha tanto para conversar.
Mas da vida adulta, pai...
da vida adulta nós temos muito.
E eu queria que, onde quer que o senhor esteja, pudesse ouvir isso. Ou ler. Não sei exatamente como essas coisas funcionam daí.
Mas eu queria que essa carta chegasse.
Primeiro, eu quero te dizer que sinto muito.

Sinto muito, de coração, por tudo que fizeram com você nessa vida. Por todo mal que te fizeram. Por todas as pancadas que recebeu antes mesmo de aprender o que fazer com elas.
E sinto muito por tudo aquilo que fizeram com você até você se tornar o homem que se tornou.
Convenhamos, pai...
Dava para ter sido um homem melhor.
Dava.
Mas hoje eu me pergunto: como cobrar tanta melhora de alguém que recebeu tanto espinho?
Como exigir delicadeza de quem passou a vida apanhando?
Às vezes penso num cachorro acuado. Não porque seja mau, mas porque apanhou tantas vezes que começa a mostrar os dentes antes mesmo de saber se a mão que se aproxima vem para bater ou fazer carinho.
Acho que você viveu um pouco assim.
Eu sei que existia coisa boa aí dentro.
Só que estava tudo muito machucado.
E talvez você tenha entregado aquilo que conseguia entregar.
Tenho certeza de que, na sua primeira família, com seus primeiros filhos, em algum momento existiu um homem sonhador.
Depois a vida aconteceu.

Minha mãe apareceu.
E eu nasci.
Não sei se fui fruto de um grande amor ou simplesmente fruto de um momento.
Talvez eu nunca saiba.
Sei apenas que existiu uma mulher maravilhosa que deveria ter sido cuidada melhor pelo homem que estava ao lado dela.
E isso machucou ela.
Me machucou também.
Mas eu te perdoo, pai.
De verdade.
Eu te perdoo.

Porque lembro das histórias que ouvi sobre a sua própria infância.
Lembro de saber que seu pai quebrou seus dois braços por causa de comida não dada a um passarinho.
Penso nisso às vezes.
Uma criança.
Um passarinho.
Dois braços quebrados.

Talvez algumas pessoas aprendam cedo demais que carinho também pode terminar em violência.
E eu não consigo imaginar o que isso fez dentro de você.
Não deve ter sido fácil.
Nada fácil.
Mas, no meio de tudo isso, eu ainda consigo lembrar de um homem que sonhava.
Um homem que amava a profissão.
Você tinha orgulho de vestir aquela farda da empresa de segurança, de trabalhar no carro-forte, de sair arrumado.
E os sapatos...
Você engraxava aqueles sapatos como se fossem parte da própria farda.
Muito bem engraxados.
E me ensinou a engraxar também.
Engraçado pensar nisso hoje.
Porque você nunca sentou para jogar bola comigo.
Não tivemos aquelas coisas que normalmente aparecem quando alguém conta lembranças de pai e filho.
Mas tivemos um sapato.
Uma graxa.
Uma escova.
E você me ensinando como fazia.
Talvez aquele fosse o nosso esporte.
E aquilo foi nosso, pai.
Só nosso.
Eu gosto de lembrar dessa cena.
Porque no meio de tanta coisa que doeu, ela me prova que existiram momentos em que você conseguiu chegar até mim.
Só que também tiveram momentos que machucaram demais.
De um jeito que até hoje eu não sei explicar se ainda dói ou se doeu tanto que simplesmente nunca cicatrizou direito.
A sua dor virou dor em outras pessoas.
Virou dor na minha mãe.
Virou dor em mim.
E algumas sequelas ficaram.
Minha infância não foi fácil.
E minha vida adulta também não foi.
Eu cresci e o senhor não acompanhou de perto esse crescimento.
Não viu meu primeiro emprego.
Não acompanhou meus namoros.
Não viu o homem que fui me tornando.
E então você partiu cedo demais.
Eu tinha dezoito anos.
Foi doloroso demais assistir àquilo.
As internações.
A doença respiratória.
O hospital.
A degradação lenta de um homem que ainda estava vivo, mas parecia morrer um pouco a cada dia.
Cada visita parecia uma despedida.
Eu lembro de entrar naquela UTI.
Lembro de te ver sendo reanimado pela equipe de enfermagem.
E lembro de pensar:
Agora ele não volta.

Mas você voltava.
Voltava para brigar com a gente.
Voltava turrão.
Voltava sendo você.
Talvez até isso hoje me faça sorrir um pouco.
Porque era o seu jeito de continuar vivo.
Hoje eu tento respeitar as dores do homem que existia por trás daquele pai com quem eu não consegui conviver tanto quanto gostaria.
E eu queria que você soubesse de uma coisa:
eu ainda te amo muito.
Muito.
Não te amo pelo que você fez.
Também não preciso fingir que tudo foi bonito para conseguir te amar.
Eu te amo porque hoje consigo enxergar um pouco do seu coração.
Graças a Deus, eu não vivi metade das coisas que você viveu.
Mas consigo imaginar o peso que carregava.
E hoje sei que a dor faz a gente errar.
Às vezes faz a gente machucar justamente quem não tinha culpa nenhuma das nossas feridas.
E então a dor vai passando de uma pessoa para outra.
Talvez tenha acontecido assim conosco.
E quando parecia que você começava a esquecer algumas coisas, quando parecia tentar ser melhor, a vida começou a descer aquela ladeira.
Vieram as internações.
A doença.
E aquela busca incessante por dinheiro.
Nisso eu me vejo um pouco em você, pai.
Essa necessidade de ganhar dinheiro para sentir que está tudo bem.
Para parecer um homem vitorioso.
Para poder cuidar da família.
Para provar para si mesmo que venceu.
Eu conheço isso.
Carrego um pouco disso também.
E está cada vez mais difícil.
Não sei se é algum karma dessa família.
A gente trabalha demais e, ainda assim, parece que trabalhar nunca foi garantia de vencer.
Às vezes parece que quanto mais a gente trabalha, mais alguém encontra uma maneira de explorar o nosso esforço.
Mas eu vou continuar tentando, pai.
Não sei se para te dar orgulho.
Quero muito dar orgulho para minha mãe, porque ela ficou.
Mas talvez eu queira vencer também para que, de alguma maneira, sua alma possa olhar para mim e descansar.
Porque você ainda aparece nos meus sonhos.
E isso dói.

Porque quando aparece, quase sempre está de fralda.
Doente.
Frágil.
Como naqueles últimos dias de hospital.
Eu não queria continuar te encontrando assim, pai.
Não quero que aquela seja a última versão de você guardada dentro de mim.
Eu quero lembrar do homem de farda.
Do sapato brilhando.
Da graxa nas nossas mãos.
Se essas aparições forem algum pedido de oração, eu espero encontrar forças para rezar mais por você.
Pela sua alma.
Para que você descanse.
E, sinceramente, espero que a Terra tenha sido o seu purgatório.
Porque você sofreu demais aqui.
Eu sei disso.
Espero que agora esteja bem.
Que esteja em paz.
Que esteja iluminado, onde quer que esteja.
E tenho mais um pedido.

O tio Hermes subiu faz pouco tempo.
Outro descabeçado que amei demais nessa vida.
A partida dele mexeu comigo mais do que talvez eu tenha conseguido demonstrar, porque de algum jeito perder ele abriu novamente a porta da sua partida.
E eu lembro de vocês dois.
Lembro do quanto eram amigos.
Do quanto se gostavam.
Então, se existir alguma possibilidade...
cuida dele aí.
E pede para ele cuidar de você também.
Dois descabeçados.
Talvez vocês tenham muita coisa para conversar.
E vê se fala com a minha avó.
Faz as pazes de verdade com ela.
Eu sei que vocês fizeram isso ainda em vida. Sei que você chegou a chamá-la de mãe.
Mas fica perto dela.
Eu gosto de acreditar que ela seja um ser de luz.
E espero que você tenha encontrado a sua luz também.
Talvez um dia eu entenda melhor tudo isso.
Talvez um dia eu encontre vocês novamente e finalmente a gente tenha tempo.
Quem sabe até para fazer aquilo que nunca fizemos.
Sentar.
Conversar.
Talvez jogar uma bola.
Ou talvez não.
Talvez exista algum sapato por aí precisando de graxa.
Aí você me ensina outra vez.
Pai...
apesar de tudo que aconteceu, apesar de tudo que faltou, apesar das feridas que ficaram e de todas as coisas que nós nunca tivemos tempo de resolver:
eu te perdoo.
E eu te amo.
Não com o amor de uma criança que inventa um pai perfeito.
Mas com o amor de um homem que finalmente conseguiu enxergar que, antes de ser seu pai, você também foi um filho machucado tentando sobreviver ao que fizeram com você.
Descansa.
Dessa vez, descansa.
E se puder olhar por nós daí...
olha pela mãe.
Olha por mim.
Eu continuo tentando daqui.
Com amor,
seu filho Raul Costa SOUZA.

Freddie Seixas