Fábio Alves Leão

DO LADO DE CÁ

Estou agora no mundo dos mortos,
Onde os sonhos se apagam em caminhos tortos.
Caminho em silêncio, sem peso, sem cor,
Sou eco de mim, sem mágoa ou ardor.

 

O tempo aqui não tem ponte ou estrada,
Só lembranças que vêm como lâmina afiada.
Os vivos me choram, sem nunca entender
Que mais morri em vida, por não saber viver.

 

Não ouço os gritos, mas sinto o pesar
Dos que fingem me amar só para se consolar.
Na lápide fria, meu nome é esculpido,
Mas tudo o que fui já foi esquecido.

 

Tantas verdades ficaram caladas,
Cartas de amor jamais entregadas.
Olhares que tive e deixei de enxergar,
Corações que feri sem me desculpar.

 

Quis gritar, mas a garganta calou,
Quis amar, mas o medo me parou.
Fugi de mim tantas vezes, em vão,
Hoje sou eco, lamento e maldição.

 

Toquem meu nome, ninguém responderá.
O frio me habita, e aqui ele ficará.
Não há redenção onde a alma se desfaz.
Só um grito que o tempo não leva jamais.

 

Agora sigo pelo eterno secreto e escuro
Nem mesmo os vermes me servem de muro.
Sou sombra esquecida, sem rosto ou razão,
Sepulto-me em mim, sem salvação.