mente não dá trégua,
pensa pra caralho
até quando a vida tá quieta.
Você pergunta demais,
eu respondo de menos.
Você quer saber do amanhã,
eu mal tô cuidando do presente.
E foi logo de primeira,
sem caô, sem cerimônia.
Dois que escreve pra não explodir,
dois que transforma ferida em memória.
E o rap?
Óbvio que não ia ficar de fora.
Nós conhece aquele rap antigo,
pesado, sem maquiagem,
som que veio da rua
e virou linguagem.
Você conhece umas quebrada
que eu conheço pela história,
umas viela onde o grave
já fazia parte da memória.
Talvez seja isso que aproximou.
Não foi só você.
Não fui só eu.
Foi aquela sensação filha da puta
de olhar pra alguém
e pensar:
“Esse aí entende.”
Porque nós já amou também.
E não foi amor meia-boca, não.
Foi primeiro amor,
daqueles que deixa a gente burro,
que faz jurar eternidade
com a cabeça cheia de futuro.
Hoje?
Gelou.
Virou lembrança,
virou nome que a gente evita,
virou foto que não abre,
virou história mal resolvida.
Mas nós sabe o peso
de quando aquilo era tudo.
E talvez por isso
a gente se reconheça.
Você vindo desnorteado,
tentando entender seus caminhos,
e eu chegando na posição
de quem deveria saber ensinar.
Você começando na macumba.
Eu já com casa nas costas.
Você aluno.
Eu professora.
Só que olha a ironia, mano:
eu te ensino sobre caminho
sem saber nem pra onde tô indo.
Te ensino a firmar o pé
enquanto o meu tá quase escorregando.
E aí vem a parte mais filha da puta:
você tá se curando.
Parou de fumar.
Tá tentando ficar bem.
E eu?
Tô fazendo o caminho contrário.
Você largando a fumaça
e eu voltando pra ela.
Você tentando se encontrar
e eu me perdendo de propósito.
Não porque eu não saiba que faz mal.
Eu sei.
É justamente porque eu sei
e mesmo assim
às vezes eu não tô nem aí.
Você tem ansiedade.
Eu tenho depressão.
Você sofre pelo que pode acontecer.
Eu já sofri tanto
que às vezes penso:
“Ah, foda-se.
Se acontecer, aconteceu.”
Você tem medo do amanhã.
Eu tenho preguiça dele.
Você pensa em mil possibilidades.
Eu vou matando uma por uma.
“Talvez dê certo.”
Jogo fora.
“Talvez seja diferente.”
Jogo fora também.
“Talvez dessa vez…”
Não.
Porque tem hora
que a pessoa se acostuma tanto com a própria desgraça
que felicidade começa a parecer golpe.
E eu sou meio assim.
Você vem com aquela ansiedade:
“E se?”
E eu:
“Já foi.”
Você:
“Mas pode melhorar.”
Eu:
“Pode.”
Mas não significa
que eu ainda tenha força
pra esperar.
E não quero que você venha
se jogar no meu buraco comigo.
Você tá subindo, moleque.
Sobe.
Não deixa minha bagunça
virar tua recaída.
Se eu não consigo me salvar agora,
pelo menos não vou te ensinar
a afundar comigo.
E se um dia as entidades falarem por mim,
talvez elas consigam te ensinar
o que eu não consigo.
Talvez elas digam:
“Fica.”
“Respira.”
“Continua.”
Porque eu mesma?
Eu tô cansada pra caralho.
Cansada de tentar parecer forte,
cansada de explicar o que sinto,
cansada de acordar
e ter que convencer minha cabeça
que vale a pena levantar.
Mas ainda tem uma coisa
que eu não consegui jogar fora.
Uma porra de um talvez.
Talvez você fique.
Talvez eu melhore.
Talvez nós escreva mais.
Talvez esse encontro
não seja só mais uma história
que começa intensa
e termina fria.
Talvez.
E olha só…
pra alguém como eu,
que já desistiu de quase todas as respostas,
um talvez já é muita coisa.