Anna Gonçalves

O casco e as estações

Há mapas rotulados nos museus,

há livros que decifram a razão,

mas nunca houve chave para os céus,

ou tese que explique a existencia dos batimentos do coração.

 

O mundo veio de um instante incerto,

sem manual de regras ou destino,

caminhamos do ápice ao deserto,

órfãos de um propósito divino.

 

Os séculos deságuam na ampulheta,

gerações que florescem e que hão de expirar.

Uns herdam a mesa posta e aeta,

outros o fardo de lutar.

 

Há quem confunda a sorte com a ventura,

e quem descubra, na própria escolha e voz,

que a verdadeira e íntima riqueza pura

é ser dono do tempo que há em nós.

 

Cada qual veste o seu imaginário,

entre o ceticismo e a ilusão.

O sol desponta no peito diário

e o relógio não pede permissão.

 

Já não pergunto se o passo é errado ou certo,

nem busco o roteiro que o tempo desenha e inventa,

recolho-me ao meu casco, seguro e calada,

onde a alma aceita o que a vida empenha.

 

Agradeço a mudança, o clima incerto,

o calor que escalda, a chuva que desaba,

o dia de paz, o abismo por perto,

o humor que se eleva, o espírito que acaba.

 

E se ao fim do espetáculo, o meu próprio casco desabar,

e a memória se apagar na cinza e no nada,

ou se tudo voltar para o mesmo lugar

num eterno retorno da mesma jornada...

 

Eu vivi.

No sol, na tormenta, no agora.

E isso bastava, antes da hora.