Há mapas rotulados nos museus,
há livros que decifram a razão,
mas nunca houve chave para os céus,
ou tese que explique a existencia dos batimentos do coração.
O mundo veio de um instante incerto,
sem manual de regras ou destino,
caminhamos do ápice ao deserto,
órfãos de um propósito divino.
Os séculos deságuam na ampulheta,
gerações que florescem e que hão de expirar.
Uns herdam a mesa posta e aeta,
outros o fardo de lutar.
Há quem confunda a sorte com a ventura,
e quem descubra, na própria escolha e voz,
que a verdadeira e íntima riqueza pura
é ser dono do tempo que há em nós.
Cada qual veste o seu imaginário,
entre o ceticismo e a ilusão.
O sol desponta no peito diário
e o relógio não pede permissão.
Já não pergunto se o passo é errado ou certo,
nem busco o roteiro que o tempo desenha e inventa,
recolho-me ao meu casco, seguro e calada,
onde a alma aceita o que a vida empenha.
Agradeço a mudança, o clima incerto,
o calor que escalda, a chuva que desaba,
o dia de paz, o abismo por perto,
o humor que se eleva, o espírito que acaba.
E se ao fim do espetáculo, o meu próprio casco desabar,
e a memória se apagar na cinza e no nada,
ou se tudo voltar para o mesmo lugar
num eterno retorno da mesma jornada...
Eu vivi.
No sol, na tormenta, no agora.
E isso bastava, antes da hora.