Ricardo Maria Louro

O Cardeal - Viseu em Ancona na Itália

O Cardeal Viseu em Ancona 

O Português de Sempre D. Miguel da Silva e Menezes, segundo filho dos Condes de Portalegre, nascido em Évora e que foi, inicialmente feito Bispo de Viseu e depois Cardeal em Roma,  fugiu de Portugal em 1540 depois de um conflito com o primo, o Rei D. João III, regressando a Roma onde foi acolhido pelo Papa Paulo III. O seu percurso Italiano passou desde então a estar muito ligado à diplomacia e à administração dos Estados Pontifícios.  Foi então que em 9 de Janeiro de 1544 foi nomeado para funções de governo nas Marcas de Ancona, transformando-se num representante do Papa, uma espécie de governador pontifício de uma importante província dos Estados da Igreja, situada ao longo do mar Adriático. A cronologia italiana da Marca Anconitana coloca D. Miguel da Silva como legado Papal em Ancona entre 1545 e 1546. Este Legado Pontifício não era simplesmente um título honorífico. A Marca de Ancona era um território dos Estados Pontifícios cujo o legado representava diretamente a autoridade Papal, portanto, D. Miguel da Silva tinha responsabilidades relacionadas com o
governo e a administração da província;
a representação da autoridade de Paulo III;
os assuntos políticos e diplomáticos;
a manutenção da ordem e a aplicação das decisões pontifícias; relacionamentos com as autoridades locais e com outras instituições dos Estados Pontifícios. Percebe-se assim por que razão o Cardeal Viseu era considerado um diplomata e administrador de confiança do Papa e, não apenas um eclesiástico português exilado em Roma.
D. Miguel não foi apenas um  legado do Papa em Ancona, foi seu intimo e grande amigo. Um confidente.  Ao longo dos seus últimos anos exerceu uma verdadeira carreira diplomática italiana. Foi legado em Veneza, na Marca de Ancona e em Bolonha. Mais tarde foi também Camerlengo do Colégio dos Cardeais, entre 1548 e 1549  durante o período que antecedeu o conclave de 1549–1550, realizado após a morte do Papa Paulo III. O Papa eleito nesse conclave foi Júlio III (Giovanni Maria Ciocchi del Monte), eleito em 7 de fevereiro de 1550 onde D. Miguel da Silva participou pessoalmente como votante. A passagem por Ancona faz parte de uma fase em que o antigo Bispo de Viseu se transformou numa figura importante da administração e da diplomacia do Papado. D. Miguel da Silva aparece também associado à cunhagem de moedas em Macerata. Foi cunhado um giulio de prata de Paulo III, na casa da moeda de Macerata, no período em que D. Miguel da Silva foi legado. A moeda apresentava, de um lado, as armas papais e, do outro, as armas do legado de Miguel da Silva juntamente com as de Macerata. O catálogo numismático identifica expressamente a peça como “Paul III – Miguel da Silva Legate”.
Isto é particularmente relevante porque demonstra que a autoridade de D. Miguel não era apenas nominal era uma autoridade efectiva. A sua identificação heráldica aparece nessa moeda oficial produzida numa cidade sob a sua administração. D. Miguel da Silva, o Cardeal Viseu, morreu em Roma em 5 de junho de 1556, com cerca de 76 anos cumulado de titulos e honrarias mas sem Pátria nem familia. Foi sepultado na sua igreja titular, a Basílica de Santa Maria in Trastevere, em Roma. O seu túmulo monumental, que existia na igreja, já não existe atualmente. Segundo a investigação da FCSH/NOVA, terá provavelmente desaparecido durante as grandes obras de renovação da basílica realizadas entre 1580 e 1595. Contudo, ainda existe no pórtico da basílica uma lápide de mármore branco com o leão heráldico dos Silvas e as letras “M.C.S.”, interpretadas como Miguel, Cardeal Silva.

Paz à Alma do Velho Cardeal de ferro, à saudade de sua Eminência o Cardeal Viseu. 
Um eterno Português de Sempre ...
\"Um pequeno Papa, um pequeno Rei!\"

Ricardo Maria Louro 
Em Ancona/Itália