Solilóquio de Hamlet
Em Elsinore tudo começa com a morte que não quis morrer porque o pai de Hamlet não cabe no túmulo e volta de armadura rangendo nas muralhas da noite com a voz seca de quem bebeu veneno no ouvido e agora só sabe pedir justiça como quem pede água, e enquanto isso a mãe, Gertrudes, veste luto tão curto que já vira festa, casa de novo com o irmão do morto porque o inverno é longo e o trono é quente e ela chama isso de consolo mas o filho vê e o coração dele racha no meio entre o amor que ainda sobra e a náusea que subiu, e o tio, Cláudio, sorri em público, levanta taça, governa com mãos limpas que escondem a sujeira do crime e reza ajoelhado por um perdão que ele mesmo não deixa acontecer, e no centro de tudo está Hamlet, o filho, príncipe de livros e de silêncio, que herdou do pai a exigência, da mãe a pressa de esquecer, do tio a desconfiança, e que agora carrega uma espada que pesa mais que coroa e uma pergunta que não dorme: vingar ou não, falar ou calar, enlouquecer para sobreviver ou sobreviver para enlouquecer, e assim essa família vira um quarto fechado onde o luto conversa com o banquete, onde o fantasma janta com o rei, onde a mãe beija as duas culpas, e onde o filho tenta segurar o mundo com as duas mãos tremendo porque se ele soltar uma ponta tudo cai, a casa, o nome, a memória, e por isso ele caminha pelos corredores falando sozinho com caveiras e com o céu, tentando achar um lugar onde filho, mãe, pai e rei possam caber juntos sem se ferir, mas em Elsinore amar já virou arma e governar virou teatro e viver virou espera, e no fim todos sangram um pouco do mesmo corte.