Doença
Hoje eu acordei de novo.
Não como quem vence,
mas como quem continua.
Meu corpo trava guerras
que eu nunca escolhi lutar.
Ele acende incêndios na pele,
faz da cabeça um lugar onde a luz machuca,
espalha um cansaço que nenhum sono alcança.
Ontem eu fui embora mais cedo,
engoli remédios como quem pede uma trégua,
e dormi.
Não porque queria descansar,
mas porque era a única forma de existir por algumas horas
sem sentir tudo.
O mais difícil
não é a dor.
É saber que ela volta.
Que não existe uma última crise,
um último comprimido,
um dia marcado no calendário dizendo:
“acabou.”
Existe só o hoje.
E depois outro hoje.
Às vezes eu sinto raiva
desse corpo que não obedece,
dessa vida que exige coragem
até para respirar em paz.
Mas, estranhamente,
ainda existe beleza.
Num café quente.
Numa conversa qualquer.
No vento batendo no rosto.
Em uma gargalhada que escapa
mesmo quando eu jurava
que não tinha mais espaço para ela.
Talvez felicidade nunca tenha sido
a ausência da dor.
Talvez ela seja essa teimosia silenciosa
de encontrar pequenos sóis
num céu que insiste em nublar.
E, mesmo cansada,
mesmo sem controlar o próprio corpo,
eu continuo colecionando esses instantes.
Não porque a dor perdeu.
Mas porque ela,
sozinha,
nunca conseguiu levar tudo de mim.