— Essa é uma daquelas noites, não é?
Em que o mundo parece virar de cabeça pra baixo
E tudo que não parecia haver aqui dentro surge...
E me despedaça de uma vez só.
— Ó, céus, quem diria
Que fugir da verdade seria apenas adiar seu encontro, garoto,
O que te despedaça não é esta noite
Mas todas as outras que você passou tentando evitá-la.
— Não tenho escolha. Não tenho medo
Mas nada parece urgente o suficiente para agir
Até de repente parecer.
— E aí você está paralisado, sim?
— E aí eu noto que a cor do céu é mais azul do que eu lembrava
Que conversar de verdade era tão gostoso
Que eu costumava mirar picos grandiosos...
Mas sou acordado pelo cheiro fétido do poço sórdido em que me enfiei,
E ao olhar pra cima
A luz nem sequer parece distante
Ela apenas não existe mais.
É assim que as lágrimas são feitas, suponho.
Queria apenas me fazer de forte
E dizer que não as derramo,
Mas não sou capaz de mentir.
— Não tem nada demais em chorar, filho
Lágrimas são apenas uma constatação da realidade
A expressão mais pura e genuína
De sua insatisfação com o universo.
— Eu sei.
Abraço a tristeza porque ela torna mais fácil de existir
Porque a cada noite dessas em que a verdade me encara
A percebo cada vez mais quebrada.
Chorar é mais fácil do que tentar consertá-la,
Algo que veio decaindo por uma década inteira.
Digo, a minha vida.
— E o que há a se fazer senão fugir, não é, garoto?
Gostaria de lhe dar uma boa solução, no entanto
Eu não tenho uma
Custaremos a encontrar alguém que tenha.