No segundo andar, dona Lúcia borda
olhando a chuva cair na ladeira.
A linha amarela risca o pano
como quem rabiscasse a própria espera.
Na estante, a foto do marido,
a moldura torta,
um pouco de fé.
Ela serve o chá
para a xícara vazia
e pergunta baixinho:
— Cadê você, Zé?
No oitavo andar, seu Augusto digita
mais um projeto que não é seu.
Há um quadro motivacional na parede
e um cansaço
que ninguém leu.
Ele guarda diplomas na pasta
como quem guarda chuva
sem chover.
No banheiro, o espelho se espanta
quando ele para diante de si
e pergunta:
— Quem é você?
Lá embaixo, o ônibus passa.
Eu olho para cima
e vejo as janelas
como televisão.
Cada rosto, um capítulo breve.
Cada luz, uma história acesa.
Cada silêncio, uma frase
que termina antes da conclusão.
Também carrego meu roteiro:
lista de tarefas,
medo,
dever.
E às vezes, no vidro escuro,
me vejo junto às outras janelas
e pergunto:
— Que falta dói em você?
Quantas vidas cabem numa rua
que ninguém para para ver?
Quantos nomes atravessamos
antes mesmo de aprender?
Quantos sonhos se dissolvem
no café corrido,
no metrô a descer?
Talvez melancolia seja isso:
muita casa acesa,
muita senha,
muita conta,
muitos mundos paralelos,
e tanta gente
esperando alguém aparecer.
Tantas solidões de vidro.
E, atrás de cada janela,
um desejo simples:
ser visto,
ser lembrado,
pertencer.