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A Última Casa

A Última Casa

 

Nasci onde os telhados aprendiam a desabar

antes mesmo de conhecerem a chuva.

Chamaram aquilo de infância.

Eu chamei de ensaio

para todas as ausências que ainda viriam.

 

Meu pai deixou apenas o formato da porta

fechando-se pela última vez.

Minha mãe transformou-se

num retrato que a memória insiste em restaurar,

embora o tempo continue roubando-lhe o rosto.

 

Desde então,

aprendi que abandono

é uma religião silenciosa:

ninguém a prega,

mas todos os órfãos sabem rezá-la.

 

Amei mulheres

que partiram antes mesmo de chegarem.

Elas deixaram perfumes

que sobreviveram mais do que as promessas.

Ainda encontro algumas

caminhando pelos corredores da minha insónia,

sem jamais voltarem

para recolher o que esqueceram dentro de mim.

 

Há anos

o telefone permanece imóvel,

como um cemitério de números.

Nenhuma voz pergunta se sobrevivi.

Nenhum \"como estás?\"

atravessa o deserto dos fios.

Até o toque desistiu de mim.

 

Conheci a anatomia das praças públicas.

Os bancos de cimento

foram mais fiéis do que muitos abraços.

As estrelas serviram de teto,

o frio escreveu cartas nos meus ossos,

e os cães de rua

guardaram melhor o meu sono

do que qualquer promessa humana.

 

Vi o amanhecer nascer

entre papelões, ferrugem e nicotina.

Descobri que a fome

não dói apenas no estômago;

ela mastiga a esperança

até restarem apenas os dentes.

 

Durante anos

acreditei que Deus

tinha perdido o meu endereço.

Talvez nunca o tenha conhecido.

 

Mas há uma verdade

que nenhuma ruína conseguiu demolir.

 

Depois que todos partiram...

depois que cada amor escolheu outra estação...

depois que o mundo esqueceu o meu nome...

 

restou alguém.

 

Eu.

 

Este homem coberto de cicatrizes,

de mãos rachadas,

de olhos que aprenderam

a conversar com o silêncio.

 

Foi ele quem me levantou

quando ninguém regressou.

Foi ele quem dividiu comigo

o último pedaço de dignidade

quando já não existia pão.

 

Hoje compreendo:

o amor mais raro

não chega pelo telefone.

Não regressa numa fotografia.

Não bate à porta

vestido de saudade.

 

Ele cresce,

bruto como ferro,

puro como água encontrada

no meio do deserto.

 

E quando o mundo inteiro

me declarou abandonado,

 

eu finalmente encontrei

a única pessoa

que jamais teve coragem de me deixar:

 

eu mesmo.