Igor Ocon

Calado, de novo.

E de novo,

preciso aprender a ficar calado.

Sorrir.

Acenar.

Concordar.

Como quem aprendeu

que algumas verdades

custam caro demais

quando são ditas em voz alta.

 

Eu achei que estava pronto.

 

Pronto para encontrar alguém

com quem dividir a vida,

não porque acreditasse

que alguém pudesse estar pronto,

mas porque acreditava

que duas pessoas imperfeitas

poderiam estar dispostas

a fazer dar certo.

 

Até ouvir

que eu era presente demais

na vida das pessoas,

 

e que, quando se é presente demais,

ninguém sente falta.

 

Como se amar com presença

fosse um defeito.

 

Depois veio:

 

“Eu até namoraria você,

mas escondido,

por causa da aparência.”

 

E alguma coisa em mim

aprendeu a se esconder.

 

Eu me fechei.

 

Não porque tivesse deixado

de querer falar,

 

mas porque cansei

de falar sozinho.

 

Todos dizem que querem diálogo.

 

E eu tentei.

 

Tentei tantas vezes

que já não sei dizer

quantas versões de mim

precisaram morrer

para que uma delas

fosse finalmente entendida.

 

Passei mais tempo

tentando me fazer entender

do que sendo ouvido.

 

E talvez esse tenha sido

meu maior erro:

 

acreditar que palavras

conseguem atravessar

um coração que decidiu

permanecer fechado.

 

Não conseguem.

 

Nenhuma palavra atravessa

uma porta que o outro

não pretende abrir.

 

E então veio o cansaço.

 

Tanta energia

para provar a você

quem eu não poderia ser,

 

hipoteticamente.

 

Tanta energia

para provar a você

que eu não sou

quem você tem medo

que eu seja.

 

Que eu não sou

quem você odeia

que eu seja.

 

E, no meio de tudo isso,

eu quase esqueci

de provar uma coisa

a mim mesmo:

 

que eu não preciso

me defender

para merecer ser amado.

 

Então hoje,

de novo,

eu escolho ficar calado.

 

Não por falta de palavras.

 

Mas porque não quero

que minhas palavras

implorem por abrigo.

 

Não quero mais

transformar meu coração

em argumento.

 

Nem minha dor

em testemunho.

 

Nem meu amor

em uma coisa

que precise ser provada.

 

Porque, da próxima vez

que eu reunir coragem

para traduzir meu coração

em palavras,

 

eu não quero descobrir

outra vez

 

que, para você,

minha dor

é só barulho.

 

Fim.