E de novo,
preciso aprender a ficar calado.
Sorrir.
Acenar.
Concordar.
Como quem aprendeu
que algumas verdades
custam caro demais
quando são ditas em voz alta.
Eu achei que estava pronto.
Pronto para encontrar alguém
com quem dividir a vida,
não porque acreditasse
que alguém pudesse estar pronto,
mas porque acreditava
que duas pessoas imperfeitas
poderiam estar dispostas
a fazer dar certo.
Até ouvir
que eu era presente demais
na vida das pessoas,
e que, quando se é presente demais,
ninguém sente falta.
Como se amar com presença
fosse um defeito.
Depois veio:
“Eu até namoraria você,
mas escondido,
por causa da aparência.”
E alguma coisa em mim
aprendeu a se esconder.
Eu me fechei.
Não porque tivesse deixado
de querer falar,
mas porque cansei
de falar sozinho.
Todos dizem que querem diálogo.
E eu tentei.
Tentei tantas vezes
que já não sei dizer
quantas versões de mim
precisaram morrer
para que uma delas
fosse finalmente entendida.
Passei mais tempo
tentando me fazer entender
do que sendo ouvido.
E talvez esse tenha sido
meu maior erro:
acreditar que palavras
conseguem atravessar
um coração que decidiu
permanecer fechado.
Não conseguem.
Nenhuma palavra atravessa
uma porta que o outro
não pretende abrir.
E então veio o cansaço.
Tanta energia
para provar a você
quem eu não poderia ser,
hipoteticamente.
Tanta energia
para provar a você
que eu não sou
quem você tem medo
que eu seja.
Que eu não sou
quem você odeia
que eu seja.
E, no meio de tudo isso,
eu quase esqueci
de provar uma coisa
a mim mesmo:
que eu não preciso
me defender
para merecer ser amado.
Então hoje,
de novo,
eu escolho ficar calado.
Não por falta de palavras.
Mas porque não quero
que minhas palavras
implorem por abrigo.
Não quero mais
transformar meu coração
em argumento.
Nem minha dor
em testemunho.
Nem meu amor
em uma coisa
que precise ser provada.
Porque, da próxima vez
que eu reunir coragem
para traduzir meu coração
em palavras,
eu não quero descobrir
outra vez
que, para você,
minha dor
é só barulho.
Fim.