Francisco Queiroz

O hoje tardio

As beiradas de tempo

e o espaço que tenho para mim,

um dia, um fim de noite qualquer,

o que sobra após o cansaço.

 

Abro um livro, e as páginas me vão...

 

Amanhã acordo cedo,

mas isso não tenho por certo.

 

Se acordo cedo,

ou me atraso,

ou poeticamente

não me acordo mais.

 

Em meu hoje tardio,

é da poltrona que não me afasto,

olho para a vitrola, avisto

o interessante movimento de seu braço.

 

Das bordas do vinil para o centro,

a melodia ressoa, seguindo a sua trilha,

e eu me vou, meio desajustado,

arranhando-me nas realidades descritas,

iluminadas pela luz amarela.

 

Para um momento, penso:

meu fim será o centro

ou uma palavra

escrita na borda do livro?

 

Apenas uma nuvem passageira,

vai-se rápido como um lampejo,

as linhas me chamam novamente.

 

E a melodia me embala,

acelera a leitura

ao passo que reduz,

vou ao limite do imaginar,

um quase sonhar...

 

Então, depois de um apogeu,

a descida lenta,

me entrego,

embriagado de sono,

já não dou conta de mim...

 

Me recolho o corpo,

e algo de mim parte

para outros cantos,

bordas, centros...

 

Sabe-se lá.

Amanhã acordo cedo,

é bom que não me vá

muito longe...