Eliete Souza

O cantinho

O Cantinho

Mergulhei tão profundamente em mim que, por milésimos de segundo, perdi a noção da realidade. Quando abri os olhos da memória, encontrei aquela menina: inocente, avoada, rejeitada, escondida atrás da própria existência, como quem acreditava que ocupar pouco espaço doía menos.

Revivi dores que atravessavam minha alma. Eu apenas me encolhia, procurava um canto qualquer e, em silêncio, deixava que as lágrimas respondessem às perguntas que minha voz jamais teve coragem de fazer.

Por que eu?
Por que comigo?
O que estou fazendo aqui?
Para que sirvo?

As perguntas ecoavam dentro de mim como pedras lançadas em um poço sem fundo, esmagando minhas entranhas.

Permanecia ali até que a dor, exausta de tanto gritar, parecesse adormecer. Então me levantava, baixava a cabeça e seguia em obediência à única realidade que conhecia.

A única resposta que me era permitida era:

Sim, senhora.

Anos depois, visitei cada um daqueles lugares dentro de mim. Caminhei entre lembranças que ainda carregavam o cheiro da tristeza e percebi que a menina continuava sentada naquele mesmo canto, esperando que alguém a enxergasse.

Dessa vez, porém, eu não fui embora.

Aproximei-me dela, segurei sua mão e, pela primeira vez em muitos anos, encontrei coragem para dizer:

Não. Eu não posso permanecer.

Naquele instante, algo se rompeu.

Não eram apenas palavras. Eram correntes.

E foi como se, enfim, eu me levantasse daquele cantinho onde permaneci por tantos anos. Pela primeira vez, deixei de apenas sobreviver.

Pela primeira vez, permiti-me viver.