atrozeves

A estranha capacidade de esperar

O que significa esperar?

Talvez ninguém tenha encontrado uma resposta.

Aprendemos
a contar o tempo,

mas nunca aprendemos
a atravessá-lo.

Esperamos mensagens
que talvez nunca cheguem.

Esperamos pessoas
que talvez nunca voltem.

Esperamos versões
de alguém
que talvez nunca tenham existido.

E  ainda assim,

continuamos esperando.

Por quê?

Talvez porque a esperança
seja o último lugar
onde o coração
aceita morar.

Noah esperou Allie.

Damon atravessou mais de um século
preso à ideia
de que algumas pessoas
continuam existindo,

mesmo quando
já partiram.

Sempre admiramos
quem espera.

Mas quase nunca
perguntamos

quanto dessa espera

é feita de silêncio.

Talvez esperar
seja a forma
mais silenciosa
de amar.

Ou talvez
a mais cruel.

Porque quem espera

vive entre duas vidas.

A que existe.

E a que imaginou.

É estranho.

Os seres humanos
são capazes
de escrever
trezentas e sessenta e cinco cartas

para uma única pessoa.

Capazes de preencher
cadernos inteiros.

Versos.

Poemas.

Capazes de lembrar
a flor favorita.

A música
que imediatamente
traz alguém
de volta à memória.

O aniversário.

As manias mais engraçadas,

aquelas que 
quando voltam à lembrança,

fazem surgir um sorriso
antes mesmo
que percebamos.

Mas por quê?

Por que guardamos
coisas tão pequenas

de pessoas
que talvez
nunca descubram?

Talvez escrever
nunca tenha sido
sobre literatura.

Talvez escrever
seja uma das formas
mais profundas
de dizer:

“Você importa.”

Porque ninguém
escreve sobre aquilo
que nunca tocou
a sua existência.

Se alguém
habita um poema,

é porque antes

habitou um coração.

Talvez escrever
seja apenas
a maneira
mais delicada

de impedir

que alguém

desapareça

inteiramente.

Porque ninguém
atravessa madrugadas
procurando palavras

para aquilo
que nunca o atravessou.

Ninguém transforma
uma pessoa
em poema

sem antes
ter sido transformado
por ela.

E talvez

essa seja
a tragédia
mais silenciosa
da escrita.

Quem inspira um poema

quase nunca sabe.

Enquanto um coração
escreve páginas,

o outro

talvez esteja vivendo
uma terça-feira qualquer.

Talvez nunca exista
um momento

em que as palavras
encontrem
o seu destino.

Mesmo assim,

continuamos escrevendo.

Continuamos esperando.

Como se toda carta
jamais enviada,

todo verso escondido,

todo poema
guardado na gaveta.

fosse apenas
uma tentativa

de convencer
o tempo

de que algumas pessoas

nunca deveriam ser esquecidas.

Talvez seja esse
o destino
de quem sente demais.

Descobrir que algumas pessoas
não permanecem
em nossas vidas.

Permanecem

na nossa linguagem.

-D