Maria encontrou o diabo numa sala de espera.
Não havia fogo. Nem enxofre. Nem o espetáculo que os homens inventaram para justificar o medo que têm de olhar para dentro. Havia apenas duas cadeiras de madeira, uma janela voltada para um mar que parecia não decidir se amanhecia ou se afundava, e uma chaleira esquecida sobre uma mesa.
O diabo usava camisa branca. As mangas dobradas até os cotovelos. Parecia cansado.
— Achei que você fosse mais impressionante.
Ele sorriu.
— Você também.
Ela sentou.
Por alguns minutos, nenhum dos dois falou. O silêncio tinha aquela intimidade desconfortável de duas pessoas que já se conhecem antes de serem apresentadas.
Foi ele quem rompeu.
— Então... de qual desastre você veio fugir hoje?
Maria respirou fundo.
— Tenho medo de perder as pessoas.
— Não.
Ela franziu a testa.
— Não?
— Você tem medo de existir depois que elas forem embora. É diferente.
Ela olhou para o mar. Ele continuou.
— Você vive como quem constrói navios sem jamais permitir que eles saiam do porto. Diz que é para protegê-los da tempestade. — Fez uma pausa. — Mas a verdade é que você nunca acreditou que eles fossem voltar.
Ela permaneceu imóvel, porque era exatamente isso. O diabo serviu duas xícaras de chá.
— Você sabe o que mais me diverte em vocês?
Ela não respondeu.
— Vocês chamam de intuição aquilo que aprenderam na infância.
Maria apertou os dedos.
— Seu pai foi embora cedo demais.
Ela levantou os olhos.
— E desde então você passou a acreditar que o amor é uma porta que faz barulho antes de bater.— O diabo bebeu um gole. — Curioso.
— O quê?
— Você nunca procura pessoas que possam ficar.
— Isso não é verdade.
— Não? — Ele apoiou os cotovelos na mesa. — Você escolhe ausências sofisticadas. Gente difícil. Gente ferida. Gente distante. Gente que já entra na sua vida com uma mala na mão.
Ela sentiu vontade de responder, mas não conseguiu.
— Porque, se elas forem embora, você poderá dizer que sempre soube.— Ele sorriu de lado. — E isso dói menos do que descobrir que alguém ficou tempo suficiente para conhecer quem você é.
Maria fechou os olhos. O vento carregava cheiro de maresia. Ela pensou em Iemanjá, pensou nas flores lançadas ao mar, pensou em quantas vezes pedira para que as águas levassem embora aquilo que nunca conseguira nomear.
— Você reza muito. — Ela assentiu.
— E funciona?
Ela demorou.
— Às vezes.
— Não.
Ela olhou para ele.
— A oração não muda Deus. — Ele encostou as costas na cadeira. — Ela só faz você falar alto aquilo que passa o resto do dia tentando esconder.
O silêncio voltou, dessa vez mais pesado, mais honesto.
— Você gosta da tristeza.
Maria sorriu, ofendida.
— Não gosto.
— Gosta.
— Não gosto.
— Claro que gosta.— Ele deu de ombros.
— Ela organiza o mundo para você.
Ela ficou irritada.
— Isso é absurdo.
— É? — Ele apontou para o peito dela. — Quando está feliz, você desconfia. Quando está em paz, espera o desastre. Quando ama, já começa a ensaiar o luto. Quando recebe carinho, procura a cláusula escondida. Quando alguém diz \"fico\", você escuta \"por enquanto\". — Respirou devagar. — A tristeza é o único lugar onde você sabe exatamente como se comportar.
Maria sentiu os olhos queimarem.
— Então o que eu faço?
Ele olhou pela janela. O mar agora parecia respirar.
— Primeiro, pare de transformar cicatriz em identidade. Depois... Pare de tratar esperança como ingenuidade. E, por favor... Pare de acreditar que sofrer profundamente significa amar profundamente, porque não significa. Significa apenas que você aprendeu cedo demais a confundir uma coisa com a outra.
Ela permaneceu em silêncio.
O diabo a observava como um médico observa um exame difícil, sem prazer, sem pena. Só concentração.
— Posso fazer uma pergunta?
Ela assentiu.
— Você quer mesmo melhorar?
Maria respondeu imediatamente.
— Quero.
Ele sorriu.
— Não.
Ela sentiu raiva.
— Você nem me conhece.
Ele riu pela primeira vez, uma risada pequena. Quase triste.
— Maria... Eu moro exatamente no lugar onde você esconde as respostas. — Ele inclinou a cabeça. — Você quer parar de sofrer. Melhorar... é outra conversa. Porque melhorar exige enterrar algumas versões suas. E você faz vigília para cadáveres emocionais como quem espera um milagre.
Ela abaixou a cabeça.
Pela primeira vez, não encontrou argumentos.
O diabo levantou-se, foi até a janela. Lá fora, uma embarcação cortava lentamente o horizonte. Não parecia fugir, nem chegar. Apenas seguia.
— Olhe.
Ela olhou.
— Sabe por que os navios não pertencem ao porto?
Ela não respondeu.
— Porque porto nenhum foi feito para ser destino. Foi feito para ser intervalo. — Ele permaneceu olhando o mar. — Você transformou todos os seus intervalos em casa, e agora estranha que a vida nunca continue.
Maria aproximou-se da janela. O vento bagunçou seus cabelos. Por um instante, teve vontade de perguntar se algum dia deixaria de sentir aquele vazio antigo. Mas desistiu, achou que já sabia a resposta.
O diabo caminhou até a porta. Antes de sair, voltou apenas o rosto.
— Ah... Mais uma coisa.
Ela esperou.
— Da próxima vez que conversar com Deus... pare de pedir que Ele acalme o mar. Você já nasceu água. Peça coragem para deixar de ser âncora.
A porta fechou.
Maria permaneceu sozinha. Só então percebeu que havia duas xícaras sobre a mesa. A outra ainda estava quente.
E foi nesse instante que entendeu uma verdade inconveniente. Talvez o diabo nunca tivesse estado ali. Talvez fosse apenas a única parte dela que ainda acreditava que a honestidade podia salvar alguém. Mesmo quando doía mais do que qualquer mentira.