Líria

Raízes

Aprendi a crescer sozinha, em silêncio,
enquanto o mundo desabava em mim.

Quando ninguém percebia,
eu juntava os pedaços de mim mesma
com mãos trêmulas
e um coração que já não sabia
a diferença entre sobreviver
e apenas existir.

Por muito tempo
fui como uma rosa espinhosa.
Bela apenas para quem olhava de longe,
ferida para quem ousava se aproximar.
Cada espinho era uma tentativa desesperada
de impedir que a dor encontrasse
um caminho de volta.

Fui dilacerada.
Pelas palavras que nunca deveriam ter sido ditas,
pelos silêncios que gritavam mais alto
do que qualquer despedida,
pelas expectativas que carreguei
como quem carrega pedras
acreditando serem flores.

Mas a dor tem um estranho costume:
ela cava.
E, sem perceber,
enquanto eu acreditava estar sendo enterrada,
ela apenas aprofundava minhas raízes.

Hoje me vejo como um carvalho.

Não porque a vida deixou de ser difícil,
mas porque aprendi a permanecer.
As tempestades ainda chegam,
os ventos ainda tentam arrancar
aquilo que construí,
mas já não encontro em mim
a menina que temia cada trovão.

Encontro alguém
que aprendeu a dançar com a chuva,
a suportar o inverno
sem esquecer que a primavera
sempre encontra um jeito de voltar.

Hoje já não imploro
para que a vida seja leve.

Peço apenas
que ela continue me ensinando
a florescer,
mesmo quando tudo ao redor
parecer insistir em morrer.

Porque descobri,
da maneira mais dolorosa,
que algumas pessoas nascem rosas,
mas são as tempestades
que as transformam em carvalhos.