Em estilo clássico, de inspiração elegíaca
Quando o vento acordou sobre o jardim antigo,
Nenhum rumor venceu seu tom profundo;
Curvou-se o cedro ao sopro já bendito,
E o céu vestiu-se em púrpura fecundo.
Caminha August entre as pedras frias,
Sem ouro algum, sem cetro ou galardão;
Carrega apenas límpidas vigílias
Guardadas na memória e no coração.
Não teme a noite, pois conhece o brilho
Que nasce onde o silêncio faz morada;
A estrela é menos vasta que o seu trilho,
A sombra, menos densa que a alvorada.
Escutam-no os ciprestes centenários,
Os sinos de esquecidas abadias;
Nas páginas de velhos relicários
Repousam suas castas alegrias.
Ó vento, sê o arauto de sua alma,
Conduze-a pelos átrios do infinito;
Não deixes que a poeira encontre calma
Sobre o esplendor de um nome nunca escrito.
Acende, ó vela, teu sereno lume,
Mais puro que o cristal das madrugadas;
Conserva entre a cera e o perfume
As preces pelo tempo sepultadas.
Há rosas que florescem sem primavera,
Há fontes que não cessam de correr;
Assim também a memória persevera,
Mesmo quando tudo parece morrer.
August contempla o horizonte absorto,
Como um filósofo ante o mar sem fim;
Vê cada adeus tornar-se novo porto,
Cada crepúsculo anunciar o jardim.
Se a morte fecha os olhos da matéria,
Não fecha os da esperança nem da fé;
O espírito atravessa a antiga névoa
Como a luz atravessa o vitral em pé.
E quando o último vento enfim passar,
Levando folhas sobre a terra fria,
Ficará apenas o eterno cantar
Da alma que venceu a noite e o dia.
Pois não perece aquele que semeia
Virtude entre as ruínas do caminho;
O tempo apenas muda-lhe a epopeia,
Mas guarda-lhe a grandeza com carinho.
Assim recordo August nesta canção,
Não como sombra, mas clarão constante;
Pois quem oferece ao mundo o coração
Permanece imortal a cada instante.