Havia uma caverna.
Não apenas de pedras,
mas de silêncios antigos
que esperavam dois corpos
para aprender novamente
o significado do fogo.
Antes dela,
o riso entre uma garfada e outra,
a estranha sensação
de conhecer de novo
quem o coração jurava
nunca ter deixado de reconhecer.
Depois,
a noite abriu suas portas.
A água morna escondia segredos,
as paredes pareciam guardar
os ecos de todos os desejos
que tiveram coragem
de não pedir desculpas.
Ela aproximou-se
como uma loba
que conhece a própria força.
E eu,
que passei a vida acreditando
que os lobos nasciam para dominar,
descobri o gosto raro
de me deixar conduzir.
Suas unhas escreveram
nas minhas costas
uma poesia
que nenhuma caneta suportaria.
Seus dentes encontraram meu pescoço
com a delicadeza feroz
de quem não queria ferir,
apenas deixar lembranças.
E cada respiração dela
transformava a gruta
num lugar vivo,
onde até as pedras
pareciam prender o fôlego.
Não era apenas desejo.
Era o encontro
de dois instintos
que deixaram a civilização
do lado de fora da porta.
Naquela noite,
não existiam relógios,
culpas,
nem promessas.
Só existia o eco
dos nossos silêncios
conversando através da pele.
E quando tudo terminou,
a água continuava quente,
as paredes continuavam imóveis,
mas havia em mim
uma estranha certeza:
algumas cavernas
não escondem tesouros.
Elas escondem versões de nós
que só aparecem
quando um lobo
tem coragem
de se render
à própria loba.
Por Freddie Seixas